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Autor: William Shakespeare 
Traduo: Carlos A. Nunes 
Edio eletrnica: Ed Ridendo Castigat Mores (www.jahr.org) 
A TRAGDIA DO REI RICARDO II 
WILLIAM SHAKESPEARE 
NDICE 
PERSONAGENS 
ATO I 
Cena I 
Cena II 
Cena III 
Cena IV 
ATO II 
Cena I 
Cena II
Cena III 
Cena IV 
ATO III 
Cena I 
Cena II 
Cena III 
Cena IV 
ATO IV 
Cena I 
ATO V 
Cena I 
Cena II 
Cena III 
Cena IV 
Cena V 
Cena VI 
PERSONAGENS 
REI RICARDO II. 
JOO DE GAUNT, duque de Lencastre, tio do Rei 
EDMUNDO DE LANGLEY, duque de YORK, tio do rei. 
HENRIQUE, cognominado Bolingbroke, duque de Hereford, filho de Joo de Gaunt, depois Henrique 
IV. 
DUQUE DE AUMERLE, filho do duque de York. 
TOMAS MOWBRAY, duque de Norfolk. 
DUQUE DE SURREY. 
CONDE DE SALISBURY. 
LORDE BERKELEY. 
BUSHY, do servio do rei Ricardo. 
BAGOT, do servio do rei Ricardo. 
GREEN, do servio do rei Ricardo.
CONDE DE NORTHUMBERLAND. 
HENRIQUE PERCY, cognominado Hotspur, seu filho. 
LORDE ROSS. 
LORDE WILLOUGHBY. 
LORDE FITZWATER. 
BISPO DE CARLISLE. 
ABADE DE WESTMINSTER. 
LORDE MARECHAL. 
SIR PIERCE DE EXTON. 
SIR STEPHEN SCROOP. 
Capito de um grupo de galenses. 
Esposa do rei Ricardo. 
DUQUESA DE GLOSTER. 
DUQUESA DE YORK. 
Damas de companhia da rainha. 
Nobres, arautos, oficiais, soldados, jardineiros, carcereiro, mensageiro, palafreneiro e outros criados. 
ATO I 
CENA I 
Londres. Um quarto no palcio. Entram o rei Ricardo, com squito; Joo de Gaunt e outros nobres. 
REI RICARDO - Lencastre honrado, velho Joo de Gaunt, conforme teu penhor e juramento 
trouxeste Henrique de Hereford, teu filho temerrio, porque ele ora sustente a grave acusao que no 
pudemos ainda julgar e que ele fez, h pouco, contra Toms Mowbray, duque de Norfolk? 
GAUNT - Sim, veio ele comigo, Majestade. 
REI RICARDO - Dize-me, ainda: acaso j o sondaste? No se funda em antigas desavenas a 
acusao lanada contra o duque, ou provm essa queixa, como fora de esperar de um vassalo dedicado, 
de provas positivas de traio? 
GAUNT - Tanto quanto sobre isso foi possvel examin-lo, trata-se, realmente, de perigo que ameaa 
Vossa Alteza, no de malcia alguma da denncia. 
REI RICARDO -  nossa real presena os trazei logo. Face a face, sobrolho carregado contra 
sobrolho, agora nos dispomos a ouvir o que disserem livremente. 
(Saem alguns homens do squito.) 
So teimosos; da clera no afogo surdos so como o mar, ardem qual fogo. 
(Voltam os homens com Bolingbroke e Mowbray.) 
BOLINGBROKE - Muitos anos de dias venturosos desejo ao meu gracioso soberano, meu senhor e 
meu rei idolatrado. 
MOWBRAY - Que ultrapasse em venturas cada dia quantos o precederam, t que a inveja do cu, 
ante a terrena e feliz sorte, um ttulo imortal vos acrescente. 
REI RICARDO - A ambos agradecemos, muito embora seja um dos dois adulador, tal como se 
depreende da causa que vos trouxe, a alta traio de que vos acusais. Primo Hereford, que assacas contra 
Norfolk, Toms Mowbray? 
BOLINGBROKE - Primeiro o cu me sirva de testemunha! -  como devotado sdito, sempre cioso
da sade preciosa de seu prncipe, liberto de qualquer dio baixo ou mal nascido, que no papel de 
acusador eu me acho na vossa real presena. Ora, Toms Mowbray,  a ti que eu digo o que se segue; 
observa minha saudao, pois tudo quanto eu disser, na terra este meu corpo vai confirmar, ou responder 
minha alma divina no alto cu. s miservel e traidor; de origem boa para seres isso, e ruim demais para 
viveres. Quanto mais belo o cu, mais ele esplende, mais feia  a nuvem que lhe o brilho ofende. E a fim 
de arrematar o caso, digo que s traidor e que para teu castigo, se meu rei consentir, a minha espada vai 
logo te privar da alma danada. 
MOWBRAY - Que minhas expresses pouco violentas o zelo no me acusem. Nossa causa no ser 
decidida pela prova de guerra entre mulheres, por grosseiros palavres de duas lnguas irritadas: quente 
est o sangue para que se esfrie por esse meio. Mas tambm no posso de pacincia orgulhar-me assaz 
submissa para nada falar e ficar calmo. Em primeiro lugar, o alto respeito diante de Vossa Alteza no me 
deixa soltar as rdeas e calcar esporas em meu discurso livre, que teria disparado at haver lanado ao 
rosto deste homem, duplicada, a felonia de que ele ora me acusa. Se de parte pusermos a realeza de seu 
sangue, sem que do parentesco nos lembremos que o liga ao meu senhor, eu o desafio, cuspindo-lhe no 
rosto: dou-lhe os nomes de covarde, de vil e maldizente. Sustento quanto disse, concedendo-lhe 
vantagens, ainda mesmo que eu tivesse de ir a p at aos picos congelados dos Alpes, ou a qualquer lugar 
inspito em que jamais ingls haja pisado, isto defender minha lealdade contra sua perfdia e falsidade. 
BOLINGBROKE - Eis, trmulo covarde, que te atiro, tambm, o meu penhor, pondo de lado meu 
parentesco real e renunciando  nobreza do sangue, que teu medo, no o respeito, agora fez lembrada. Se 
o medo criminoso ainda te deixa fora bastante para levantares o penhor de minha honra: ento te abaixa 
para apanh-lo, que, por ele e todo rito cavaleiresco, brao a brao, sustento agora quanto aqui te disse ou 
o que de pior tua malcia invente. 
MOWBRAY - Levanto-o, e juro pela minha espada que a honra de cavaleiro gentilmente nos ombros 
me deps, que hei de encontrar-te em qualquer condio lcita e justa, segundo as nobres regras dos 
costumes cavaleirescos. E, uma vez montado, no quero descer vivo se, em verdade, traidor eu for ou 
falto de lealdade. 
REI RICARDO - Que acusao levanta o nosso primo contra Mowbray? Grande , decerto, para nos 
fazer despertar o pensamento de algo ruim por ele praticado. 
BOLINGBROKE - Vede: o que eu vou dizer, provo-o com a vida. Digo, pois, que Mowbray recebeu 
oito mil nobres como emprstimo do soldo do exrcito de Vossa Majestade, que ele desviou para uso 
inconfessvel, como biltre injurioso e vil traidor. Afirmo, ainda, e o provarei na lia, aqui ou alhures, ou 
nas mais distantes paragens que olho ingls possa ter visto, que todas as traies imaginadas durante 
estes dezoito ltimos anos tm no falso Mowbray a fonte e a origem. Digo mais, e pretendo sustent-lo, 
tirando-lhe a existncia miservel, porque surja a verdade, que ele a morte deu ao duque de Gloster, por 
ter feito sugestes aos seus crdulos inimigos, e assim, como traidor e pusilnime, em sangue lhe afogou 
a alma inocente, sangue esse que me grita, como o sangue de Abel sacrificado, das cavernas mudas de 
toda a terra, reclamando justia pronta e justa punio. Por meus avs, eu perderei a vida ou lhe darei a 
pena merecida. 
REI RICARDO - Como alto as suas decises se elevam! Toms de Norfolk, que respondes a isso? 
MOWBRAY - Oh! que meu soberano vire o rosto e deixe surdo o ouvido alguns instantes, at que eu 
mostre  mancha do seu sangue como Deus e as pessoas de respeito dedicam dio a tais caluniadores. 
REI RICARDO - Ouvidos e olhos imparciais eu tenho, Toms Mowbray. Se irmo ele me fosse, 
digo mais: fosse o herdeiro da coroa - com ser apenas filho do meu tio - juro pelo respeito do meu cetro 
que a vizinhana ao nosso sacro sangue privilgio nenhum lhe ensejaria, nem deixara parcial a inabalvel 
firmeza de minha alma ntegra e justa. s meu vassalo, como ele o  tambm; fala, pois, sem receio de 
ningum.
MOWBRAY - Ento te digo, Bolingbroke, ao baixo corao, pela porta estreita e falsa dessa 
garganta: mentes! Pois trs partes do pagamento de Calais em tempo foram devidamente distribudas 
entre os homens de Sua Majestade. A outra parte eu guardei, depois de obtido consentimento do meu rei. 
 que ele me devia ainda o resto de uma conta, do tempo em que eu  Frana fora enviado, para 
trazer-lhe a esposa. Agora engole toda a tua calnia. Quanto  morte de Gloster, no fui eu seu assassino, 
mas por minha desgraa, neste caso me acusa a conscincia de um descaso do dever. Quanto a vs, meu 
nobre lorde de Lencastre, muito alto e venerando pai do meu inimigo, uma cilada, de fato, eu preparei 
para matar-vos, pecado que me punge a alma angustiada. Mas antes de tomar o sacramento, no faz 
muito, eu contei todo o ocorrido, j tendo suplicado a Vossa Graa que me perdoasse a falta, o que, 
suponho, no me foi denegado. Eis o meu erro. Tudo o mais da denncia nasce apenas do rancor de um 
vilo, de um miservel, da inveja de um traidor degenerado, contra o que eu prprio ainda hei de 
defender-me, motivo por que jogo a minha luva, tambm, aos ps desse traidor ousado para, no sangue 
que seu peito albergue, provar que sou um fido gentil-homem. Marque, pois, Vossa Alteza, sem demora, 
para o nosso recontro o dia e a hora. 
REI RICARDO - Guiai-vos por mim, fidalgos enraivados, deixando-vos placar sem perder sangue. 
Sem ser mdico, digo que no h de cortar fundo demais vossa maldade. Sede cordatos, esquecei; que o 
dia, diz o doutor, no  para sangria. Vamos, bondoso tio, achar um meio que ponha logo um fim a este 
torneio. Vs vos incumbireis de vosso filho; eu, de Mowbray: sairo ambos com brilho. 
GAUNT - Esse ofcio diz bem com a minha idade. Vamos, filho, revela urbanidade: solta o penhor do 
duque. 
REI RICARDO - Faze o mesmo, Mowbray, com o dele. 
GAUNT - Como! Acaso, a esmo falamos, Harry? A obedincia manda que ordens eu d usando de 
voz branda. 
REI RICARDO - Norfolk, a luva joga; qual o dano que disso te advir? 
MOWBRAY - Meu soberano, atiro-me a teus ps. De minha vida podes dispor, porm no te  
devida minha vergonha. Devo-te a primeira; mas meu nome, que a Morte, embora o queira, jamais me 
apagar da sepultura, s poder viver com a f mais pura. Acusado me vejo, escarnecido, tratado com 
desprezo imerecido, transpassado at na alma pela espada venenosa da infmia, de que nada me poder 
curar, seno somente todo o sangue do biltre cujo dente me fez esta ferida. 
REI RICARDO - No devemos soltar rdeas  clera; os extremos se destroem: lees domam 
leopardos. 
MOWBRAY - Mas perduram as manchas, pelos dardos provindos da calnia. Se a vergonha me 
tirares, prometo que a peonha no mais me h de lembrar. Meu soberano, o mais puro tesouro, o mais 
que humano benefcio que o tempo nos concede  um nome imaculado, sem que adrede lhe manchemos 
o brilho. No passamos. sem isso, de uma argila com recamos, simples poeira pintada. A mais preciosa 
jia em cofre inviolvel  danosa reputao num peito leal e puro. Minha honra  minha vida; meu futuro 
de ambas depende. Serei homem morto, se me privarem da honra, do conforto de um nome imaculado. 
Por tudo isso, meu caro rei, far-me-s alto servio, se me deixares defender com a vida minha reputao 
to bem nascida. 
REI RICARDO - Vamos, primo, comea. 
BOLINGBROKE - Deus no queira que minha alma se manche por maneira to vergonhosa. E crvel 
que eu,  vista de meu pai, me rebaixe e que ele assista  minha humilhao, sem que eu me guarde de 
mostrar-me inferior a este covarde? Antes que a lngua possa a honra ferir-me por maneira to baixa, ou 
que confirme minha queda, chamando a parlamento vergonhoso, servindo-me do alento que me resta, 
com os dentes eu cortara o rgo servil da humilhao amara e ao rosto de Mowbray o jogaria, 
sangrento, onde se acoita a vilania.
(Sai Gaunt.) 
REI RICARDO - No temos por costume pedir nada, seno dar ordens. J que no podemos vos 
deixar como amigos, aprestai-vos, respondendo com a vida nesse ponto, que em Coventry vos batereis no 
dia de So Lambert. As lanas e as espadas patentearo as intenes malvadas. J que o no pude, 
incumba-se a justia de fazer ressaltar a f castia. Marechal, aos arautos manda aviso para que vejam 
tudo o que  preciso. 
(Saem.) 
CENA II 
O mesmo. Um quarto no palcio do duque de Lencastre. Entram Gaunt e a duquesa de Gloster. 
GAUNT - Ai, a poro que me tocou do sangue de Gloster, muito mais do que essas queixas, me 
concita a ir de encontro aos carniceiros de sua vida. Mas, como o castigo se acha nas mos que a falta 
cometeram, que punir no podemos,  vontade do cu entregue fica nossa causa. Quando vir que  
chegada a hora oportuna sobre a terra, vinganas esbraseantes ele far chover nos criminosos. 
DUQUESA - Os laos fraternais no te esporeiam com mais vigor? O amor no tira chispas desse 
teu sangue velho? Os sete filhos de Eduardo, e tu s um deles, eram como sete vasos de seu sagrado 
sangue, ou sete ramos que de um tronco viessem. Destes, alguns secaram pelo prprio curso da natureza; 
outros cortados foram pelo destino antes do tempo. Mas Toms, minha vida, meu querido senhor, meu 
Gloster, vaso do sagrado sangue de Eduardo, ramo florescente de seu real tronco, foi despedaado, 
tendo-se derramado toda a seiva preciosa, foi cortado, emurchecendo-se as folhas estivais, pela mo dura 
da Inveja e a foice rubra do assassino. Ah, Gaunt, era o teu sangue! O leito, o seio, o corao, o molde de 
onde a forma recebeste, fez dele uma criatura, e, embora estejas vivo e ainda respires, nele a vida 
perdeste. De algum modo, concordas em que fosse o teu pai morto, vendo teu pobre irmo perder a vida, 
ele que de teu pai era o retrato. No ds, Gaunt, a isso o nome de pacincia; chama-lhe desespero. 
Consentindo que seja teu irmo assassinado, pes a nu o caminho de tua vida, mostrando ao duro 
criminoso o modo de te matar. O que nos homens baixos tem nome de pacincia,  covardia plida nas 
pessoas de alto sangue. Como direi? O meio mais seguro para salvaguardares a tua vida  vingar o 
assassnio do meu Gloster. 
GAUNT -  de Deus a questo, porque essa morte foi causada por seu representante, o mensageiro 
ungido em seu conspecto. Se um crime cometeu, que Deus o puna, porque eu jamais levantarei o brao 
vingador para ir contra o seu ministro. 
DUQUESA - A quem dirijo, pois, as minhas queixas? 
GAUNT - A Deus, amparo e defensor das vivas. 
DUQUESA - Ento, que seja. Velho Gaunt, adeus. Vais a Coventry para ver a luta que entre 
Mowbray, o sanguinrio, e o nosso caro primo Hereford vai ser travada. Oh, se o dano causado ao meu 
esposo na espada de Hereford fizesse peso porque ela o peito atravessasse ao duro carniceiro Mowbray! 
Ou se a desgraa no o alcanar desde a primeira volta, que a culpa de Mowbray de tal maneira lhe 
oprima o peito, que o rdego cavalo tenha o dorso quebrado e o cavaleiro ao comprido da lia atirar 
possa, plido e trmulo o entregando  fria de Hereford. Velho Gaunt, adeus. A esposa de teu defunto 
irmo vai ter na vida por companheira a sua dor comprida. 
GAUNT - Adeus, irm; para Coventry eu sigo; consolo tenhas quanto vai comigo. 
DUQUESA - Uma palavra, ainda. As grandes dores ressaltam de onde caem, no por serem vazias: 
pela ao do prprio peso. Despeo-me sem ter falado nada, que o luto torna a dor mais abafada. D
recomendaes a Edmundo York, meu caro irmo. E tudo. Agora podes partir. No, no te vs! 
Conquanto seja tudo, um consolo  minha dor enseja. Ocorre-me dizer-lhe... Em que pensava? Que em 
Plashy me visite a toda pressa. Mas que pode o bom velho encontrar nessa morada, seno muros 
desornados, sales vazios, quartos sem pessoas, caminhos no pisados? Que ouvir pode, seno a dor que 
o peito me sacode? Que no pense em ir l buscar tristeza, pois dela em toda parte ser presa. Chorando 
aceito a minha triste sorte; desesperada parto para a morte. 
(Saem.) 
CENA III 
rea perto de Coventry. Lia demarcada. Um trono. Arautos, etc. Entram o lorde Marechal e 
Aumerle. 
MARECHAL - Milorde Aumerle, Henrique de Hereford se acha pronto? 
AUMERLE - De todo, s deseja poder entrar. 
MARECHAL - Cheio de audcia e afogo, Toms Mowbray aguarda to-somente o sinal da trombeta 
do apelante. 
AUMERLE - Sendo assim, preparados esto ambos os combatentes, dependendo o encontro da 
chegada de Sua Majestade. 
(Fanfarras. Entram o rei Ricardo, que se assenta no trono, Gaunt, Bushy, Bagot, Green e outros; que 
se colocam em seus lugares. A um toque de trombeta na cena, responde outro dentro. A seguir, entra 
Mowbray, completamente armado, precedido de um arauto.) 
REI RICARDO - Pergunta, marechal, ao cavaleiro que ali se encontra a causa de estar ele neste 
lugar, armado. Qual o nome, pergunta-lhe, tambm, e o juramento lhe toma de que vem por causa justa. 
MARECHAL - Dize, em nome de Deus e do monarca, como te chamas, porque ests armado qual 
cavaleiro, contra quem vieste, e o motivo nos conta da pendena. Pela cavalaria que professas e por teu 
juramento, s verdico. E assim te ampare o cu e o brio prprio. 
MOWBRAY - Toms Mowbray eu sou, duque de Norfolk; aqui me encontro por haver jurado - 
Deus no permita que perjuro eu fique! - lutar por minha lealdade e pela f que me liga a Deus, ao rei e a 
sua linhagem, contra o duque de Hereford, que me acusa, e, desta arte, com o auxlio de Deus e deste 
brao, demonstrar-lhe, ao tempo em que a mim prprio me defendo, que ele traiu a Deus, ao rei e a mim. 
Como estou com a verdade, o cu me ampare. 
(Senta-se no seu lugar.) 
(Soam trombetas. Entra Bolingbroke, apelante, com armadura e precedido de um arauto.) 
REI RICARDO - Pergunta, marechal, ao cavaleiro que armado ali se encontra, qual seu nome, por 
que razo aqui se acha vestido de couraa de guerra e, sempre s luzes de nossas leis, lhe obtm o 
depoimento da justia da causa que defende. 
MARECHAL - Como te chamas? Por que causa te achas diante do rei Ricardo e em sua lia? Contra 
quem te apresentas? Qual a queixa que aqui te trouxe? Como cavaleiro, dize a verdade e o cu que te 
defenda. 
BOLINGBROKE - Sou Harry de Hereford, Lencastre e Derby. Armado me apresento nesta lia para, 
com a ajuda do Senhor e minha prpria fora, provar que Mowbray, duque de Norfolk, execrando e 
perigoso, traiu a Deus, ao rei Ricardo e a mim. Como estou com a verdade, o cu me ampare. 
MARECHAL - Pois, sob pena de morte, ningum seja to atrevido que ouse entrar na lia, seno 
somente o marechal e quantos oficiais ele tenha designado para a alta direo deste torneio.
BOLINGBROKE - Permiti, marechal, que a mo eu beije de Sua Graa e que os joelhos dobre ante o 
meu rei, porque Mowbray e eu prprio somos como pessoas que se aprestam para uma viagem longa e 
cansativa. Permiti, pois, faamos despedida cerimoniosa e adeus muito saudoso aos amigos que ficam 
presentemos. 
MARECHAL - O apelante sada com respeito Vossa Grandeza e solicita a graa de vos beijar a mo 
e despedir-se. 
REI RICARDO (descendo do trono) - Para abra-lo, o trono ns deixamos. Primo Hereford, em 
sendo a causa justa, ampare-te a Fortuna nesta justa. Se meu sangue perderes, a departe te poderei chorar, 
mas sem vingar-te. 
BOLINGBROKE - Olho nobre nenhum de mim se importe, se a espada de Mowbray me der a morte. 
Como o falco no vo, assim, confiante, contra Mowbray me atiro, a meu talante. Meu amado senhor, eu 
me despeo de vs e de meu primo, lorde Aumerle, no abatido, ainda que a morte eu vejo, mas moo e 
alegre e com vigor sobejo. Como nas festas ptrias, eu sado o mais doce manjar no fim de tudo:  tu, 
autor terreno do meu sangue, cujo esprito moo, renovado dentro de mim, me empresta vigor duplo para 
que eu me alce . altura da vitria que, airosa, plana sobre a minha fronte, com tuas oraes invulnervel 
a armadura me deixa, e, com tuas bnos, torna mais fina a ponta desta lana porque ela possa penetrar 
na cota de cera de Mowbray e brilho ao nome de Joo de Gaunt ainda aumentar consiga na atitude 
altanada de seu filho. 
GAUNT - Deus te auxilie em tua causa justa. Como o raio, s rpido na luta; que teus golpes, 
dobrados, redobrados, qual o trovo atroador, no casco de teu inimigo pernicioso caiam. Reanima o 
sangue jovem desse peito. 
BOLINGBROKE - Com a ajuda de So Jorge e do Direito. 
(Senta-se em seu lugar.) 
MOWBRAY (levantando-se) - Como a Fortuna e o cu determinarem, vai morrer ou viver aqui um 
sdito fiel ao rei Ricardo, um gentil-homem honrado, leal e justo. Nenhum preso jamais com o corao 
to levantado longe os ferros jogou do cativeiro, para abraar com mostras delirantes a liberdade de ouro, 
como agora minha alma dana ao celebrar, alegre, esta festa de sangue. Poderoso monarca, companheiros 
de nobreza, meus votos vos dirijo com lhaneza. Como para um passeio eu me despeo, confiante em vir a 
obter alto sucesso. 
REI RICARDO - Adeus, milorde; nesses olhos vejo da virtude e valor forte lampejo. Dai logo incio, 
marechal,  pugna. 
(O rei e os nobres voltam para seus lugares.) 
MARECHAL - Henrique de Hereford, Lencastre e Derby, recebe a lana e que o Direito vena. 
BOLINGBROKE (levantando-se) - Qual torre de esperana, "Amm" eu digo. 
MARECHAL (a um oficial) - Leva ao duque de Norfolk esta lana. 
PRIMEIRO ARAUTO - Henrique de Hereford, Lencastre e Derby, diante de Deus, do rei e de si 
prprio aqui se acha, sob pena de ser tido como impostor sem f e sem coragem, para trazer a prova de 
que o duque Toms Mowbray faltou com a lealdade ante Deus, ante o rei e ante ele mesmo, 
desafiando-o, por isso, para duelo. 
SEGUNDO ARAUTO - Aqui tambm est o duque de Norfolk, Toms Mowbray, sob pena de ser 
tido como desleal e falto de coragem, no somente em defesa de si prprio, como tambm para trazer a 
prova de que Harry de Hereford, Lencastre e Derby foi desonesto a Deus, ao rei e a ele, o que faz com 
vontade livre e altiva, s aguardando o sinal para o combate. 
MARECHAL - Trombetas soai!  frente, combatentes! 
(Toque de ataque.) 
Parai! Parai! O rei soltou o basto!
REI RICARDO - Pondo de lado o capacete e a lana, voltem a ocupar ambos seus lugares. Vinde 
conosco, e que as trombetas soem at voltarmos e trazermos nossa resoluo que ser dita aos duques. 
(Toque demorado de fanfarra) 
(Aos combatentes) - Aproximai-vos e ouvi o que decidimos no conselho. Porque o solo do reino no 
se manche com o caro sangue a que ele dera vida; por nos ser repugnante  vista o aspecto cruel das civis 
chagas, produzidas por espadas afins; e por pensarmos que o orgulho de asas de guia e os pensamentos 
cuja ambio ao cu remontam sempre, de par com a inveja que os rivais odeia foram causa de terdes 
despertado nossa paz que dormia infantil sono no bero calmo desta nossa terra, e que assim despertada 
pelo rudo dos tambores discordes, pelos gritos selvagens e estridentes das trombetas e o spero choque 
das irosas armas, expulsar, talvez, a paz formosa dos nossos quietos lindes, resultando o mal de em 
sangue amigo mergulharmos: vos banimos de nossos territrios. Primo Hereford, sob pena de perderdes a 
vida, enquanto duas vezes cinco veres nossas campinas no dourarem, no saudareis nossos domnios 
belos mas os caminhos pisareis do exlio. 
BOLINGBROKE - Seja como o dizeis. Minha alegria ser, to-s, no exlio, todo dia saber que o sol 
que aqui vos ilumina me dar, tambm, luz, e que a runa de minha vida triste e malfadada dourar, como 
em flgida alvorada. 
REI RICARDO - Norfolk,  mais pesada a tua pena, digo-te a contragosto: as sorrateiras horas no 
marcaro jamais o termo do teu exlio caro e sem limite. Contra ti pronunciamos a implacvel palavra 
"Nunca mais!" Ou isto ou a morte. 
MOWBRAY - A sentena  terrvel, soberano senhor. Eu no contava que da boca de Vossa 
Majestade ela me viesse. Ddiva mais valiosa, no to grave mutilao como me ver lanado na infinda 
vastido que a todos cabe, das mos de Vossa Alteza eu merecera. A lngua que durante quarenta anos eu 
aprendi, o ingls nativo, devo-a doravante esquecer. Vai ela, agora, ser para mim como viola ou harpa 
sem cordas, ou qualquer fino instrumento sempre no estojo, ou, quando fora dele, posto em mos que de 
todo o jeito ignoram de tirar dele acordes harmoniosos. Em minha boca a lngua me prendestes, 
trancando-a duplamente com a barreira dos dentes e dos lbios e deixando que a estpida Ignorncia, 
bronca e estril, como meu carcereiro, de mim cuide. Sou muito velho para adular ama, muito avanado 
em anos para aluno voltar a ser. O que , pois, a sentena cominada, seno a morte muda, que me tira da 
lngua toda a ajuda? 
REI RICARDO - Por que do teu sofrer fazer alarde? Para lamentaes  muito tarde. 
MOWBRAY - Ento vou procurar onde me acoite: na treva espessa da infinita noite. 
(Faz meno de retirar-se.) 
REI RICARDO - Espera mais um pouco e faze um voto: ponde as banidas mos na real espada que 
aqui tendes, e pela obedincia que ao cu deveis - convosco ns banimos a poro que era nossa - 
prometei-nos cumprir a jura que ora formulamos: Que jamais - a verdade e Deus vos guiem! - vos 
ligareis no exlio pelos laos da amizade, nem nunca face a face vos vereis; que no h de haver entre 
ambos troca de cumprimentos ou de cartas, que no atenuareis a tempestade desses dios domsticos e 
nunca vos vereis de pensado, ou seja para tramar, ou para maquinar alguma coisa contra ns prprios, 
nosso Estado, qualquer vassalo nosso ou nossa terra. 
BOLINGBROKE - Juro. 
MOWBRAY - Eu, tambm, juro cumprir tudo isto. 
BOLINGBROKE - Norfolk, como entre inimigos se permite: a esta hora, se tivesse o rei querido, 
uma de nossas almas vaguearia pelo ar, banida do sepulcro frgil da nossa carne, como nossa carne 
banida agora se acha da Inglaterra. Confessa-te traidor, pois, antes de ires do reino. J que partes para 
longe, no carregues por todo o mundo o fardo, to pesado, de uma alma criminosa. 
MOWBRAY - No, Bolingbroke; se traidor eu fosse, quisera ver meu nome derriscado do livro da
existncia, e ser banido do cu, como da ptria. Mas o que s, s Deus, tu e eu sabemos. Mas suspeito de 
que cedo o rei venha a arrepender-se. Adeus, meu rei;  minha toda a terra, salva a estrada que vier ter  
Inglaterra. 
(Sai.) 
REI RICARDO - Tio, no espelho desses olhos vejo que o corao te sangra. O triste aspecto 
conseguiu apagar quatro dos anos do exlio. 
(A Bolingbroke) - Decorridos seis invernos, tragam-te a este pas ventos galernos. 
BOLINGBROKE - Que tempo enorme uma palavra encerra! Fala um monarca: quatro invernos frios 
ele respira e alegres quatro estios! 
GAUNT - Agradeo ao meu rei ter encurtado, por considerao a mim, quatro anos do exlio de meu 
filho. Mas  mnima a vantagem que eu possa auferir disso. Porque antes de mudarem os seis anos do 
exlio de meu filho as suas luas e o curso completarem, minha lmpada sem leo, minha luz quase 
apagada, os anos as faro mergulhar cedo numa noite infinita. O meu pequeno pavio vai perder, em 
pouco, o brilho, sem que eu possa rever meu caro filho. 
REI RICARDO - Tio, ainda contas com uma longa vida. 
GAUNT - No, porm, com uma hora mal sofrida que um rei me possa dar. Sim, poderias deixar 
mais curtos meus tristonhos dias, roubar-me longas noites de veladas, mas dar no podes rseas 
alvoradas. Ajudars o tempo em seu trabalho de abrir sulcos em mim; mas ser falho qualquer intento de 
deter o passo das lentas rugas em to pouco espao. Podes matar-me, sim, ningum duvida; mas, morto 
eu, nem teu reino me d vida. 
REI RICARDO - Teu filho foi banido aps conselho demorado, em que tua lngua teve parte no 
veredicto. Por que causa procurar rebaixar nossa justia? 
GAUNT - Quanto a gula insacivel mais cobia, mais nos pesa no estmago. Mandaste que eu fosse 
juiz direito num contraste com minhas emoes; eu preferira que falar me deixasses sem mentira, na 
posio de pai. Mais indulgente me teria mostrado, se na frente um estranho tivesse, no meu filho. 
Porque a suspeita no manchasse o brilho do meu nome, com a pecha de parcial, fui parte em minha pena 
capital. Esperei que um de vs me reprochasse tanto rigor e me dissesse em face que eu muito exagerava 
por ter sido fautor de meu destino dolorido. Consentistes, assim, que minha lngua venha a ser causa de 
eu morrer  mngua. 
REI RICARDO - Adeus, primo; repete-lhe, bom tio, que o exlio  de seis anos; seis, a fio. 
(Toque de clarins; sa o rei Ricardo com seu squito.) 
AUMERLE - Adeus, primo; do exlio, por escrito, direis o mais que houver para ser dito. 
MARECHAL - No me despedirei,  s o que eu falo; at  fronteira iremos a cavalo. 
GAUNT - Por que amealhas, assim, tuas palavras, no dando uma resposta aos teus amigos? 
BOLINGBROKE -- De muito poucas eu disponho agora para me despedir, quando devera prdiga 
ser a lngua em seu ofcio, para exprimir a dor que me angustia. 
GAUNT - Tua dor  s ausncia de algum tempo. 
BOLINGBROKE - Sem alegria,  dor todo esse tempo. 
GAUNT - Seis invernos que so? Passam depressa. 
BOLINGBROKE - Para quem  feliz; mas a tristeza transforma uma hora em dez. 
GAUNT - Pensa que te achas viajando por vontade e com proveito. 
BOLINGBROKE - A esse nome de viagem suspirara-me o corao, por oprimi-lo a angstia da 
peregrinao forada e longa. 
GAUNT - Imagina que o crculo sombrio de teus cansados passos seja apenas o caixilho em que tens 
de pr a jia preciosa de tua volta para a ptria. 
BOLINGBROKE - No; cada trecho que eu andar, tedioso, lembrado me far da poro grande do
mundo que me afasta dessa jia. Terei de entrar em longo aprendizado no estrangeiro, somente para, ao 
cabo do meu exlio, vir a vangloriar-me de que fui operrio do infortnio? 
GAUNT - Qualquer lugar que o olho do cu visita, para o sbio  feliz enseada e porto de 
salvamento. Ensinar deves tua necessidade a assim julgar as coisas. No h melhor virtude do que a 
prpria necessidade. Pensa que no foste banido pelo rei, mas que, ao contrrio, tu s o que o baniste. O 
sofrimento pesa mais onde observa que  levado com mais dificuldade. Ora imagina que eu te enviei para 
buscares honras, no que o rei te exilou. Supe, ainda, que em nosso ar voraz peste ora se encontra, razo 
de procurares outros climas. Deves pensar que o que  alma te for caro se acha no ponto de chegada, 
nunca no lugar de onde vieste; considera msicos os canoros passarinhos, a grama em que pisares, lindo 
junco, belas mulheres quantas flores vires e teus passos no mais do que a cadncia deliciosa da dana. 
Que a tristeza rosnadora com menos fora morde quem com ela se pe menos acorde. 
BOLINGBROKE - Oh! Quem nas mos sustentaria fogo, imaginando ser o frio Cucaso? Ou 
embotara a ponta do apetite, pensando apenas em manjares finos? Ou, nu, passeara as neves de 
dezembro, evocando fantsticos calores? No! A imaginao do que  agradvel torna mais doloroso o 
sentimento do que nos causa dor. Nunca destila tanto veneno o dente da tristeza como quando no mata 
logo a presa. 
GAUNT - Quero mostrar-te, filho, o teu caminho: se eu fosse a ti, deixara o ptrio ninho. 
BOLINGBROKE - Seja assim; adeus, solo da Inglaterra; querida terra, minha me, minha ama que 
me nutres ainda, adeus! Eu parto e, ufano, mostrar-me-ei ao mundo inteiro, sempre ingls, muito embora 
no estrangeiro. 
(Saem.) 
CENA IV 
Londres. Um quarto no castelo real. Entram o rei Ricardo, Bagot e Green, por uma porta; Aumerle por 
outra. 
REI RICARDO - Notamos, sim... Aumerle, at que ponto do caminho levaste o alto Hereford? 
AUMERLE - Levei o alto Hereford, se vos agrada dar-lhe esse nome, at  estrada prxima, onde o 
deixei. 
REI RICARDO - E  despedida. quantas lgrimas derramaste? 
AUMERLE - Ora, nenhuma, ou, antes, o noroeste que soprava contra ns com violncia e, desse 
modo, me endefluxou, fez que, por mero acaso, casse em nossa fria despedida a graa de uma lgrima. 
REI RICARDO - E que disse nosso primo no instante em que o deixaste? 
AUMERLE - "Adeus." E como o corao no me deixasse profanar esse termo, arranjei foras para 
que o abatimento simulasse tanta dor, que as palavras pareciam sepultadas na tumba da tristeza. Com a 
breca! Se a palavra "Adeus" as horas alongasse e bastantes anos desse a esse pequeno exlio, ele teria 
recebido de mim muitos volumes de adeuses. Mas no tendo a faculdade de assim fazer, no recebeu 
nenhum. 
REI RICARDO - E nosso primo, primo; mas chegado que seja o fim do exlio,  duvidoso que o 
parente a rever volte os amigos. Ns prprio, Green aqui, Bagot e Bushy observamos como ele 
costumava bajular o povinho, parecendo mergulhar-lhe no peito com saudares de cortesia familiar e 
humilde; como ele prostitua reverncias com escravos, ganhando os operrios a poder de sorrisos e 
fingindo paciente suportar o triste fado, como se para o exlio carregasse a afeio deles todos. Pois se o 
gorro tirou para uma vendedora de ostras! Dois carroceiros lhe gritaram: "Possa Deus vos servir de
guia!" Ao que o tributo receberam de seus maleveis joelhos com "Meus compatriotas! Agradeo-vos de 
todo o corao, caros amigos!" como se por herana ele tivesse recebido a Inglaterra e da esperana dos 
meus sditos fosse o degrau prximo. 
GREEN - Bem, mas j foi e com ele, esses cuidados. Urge pensar na rebelio da Irlanda. Medidas 
prontas devem ser tomadas, meu soberano, antes que mais descanso lhe propicie recursos que redundem 
em prejuzo de Vossa Majestade. 
REI RICARDO - Iremos em pessoa a essa campanha. E j que nossos cofres, com to grande corte e 
tantas larguezas, se tornaram leves demais, seremos obrigados a penhorar nosso real domnio. Servir 
essa renda para os gastos do negcio imediato. Se for pouco, nossos representantes aqui dentro recebero 
letras em branco para fazer que grandes somas de ouro assinem as pessoas de haveres, o que logo nos 
enviaro para suprirmos nossas necessidades. Sim, que sem delongas embarcar pretendemos para a 
Irlanda. 
(Entra Bushy.) 
Bushy, que novidade? 
BUSHY - O velho Joo de Gaunt est de cama, milorde, muito mal. Foi repentino. Mandou recado 
urgente porque Vossa Majestade lhe faa uma visita. 
REI RICARDO - Onde se acha? 
BUSHY - Em Ely House. 
REI RICARDO - Deus, sugere a seu mdico que o ajude a baixar, sem demora, para o tmulo! O 
forro de suas arcas vai servir-nos para enroupar os homens que levarmos para as guerras da Irlanda. 
Gentis-homens, vinde comigo! Vamos visit-lo. Ainda que no caminho no paremos, Deus queira que 
cheguemos muito tarde. 
TODOS - Amm. 
(Saem.) 
ATO II 
CENA I 
Londres. Um quarto em Ely House. Gaunt, no leito; junto dele, o duque de York e outros. 
GAUNT - Dizei-me: o rei no vem? No ltimo alento quero conselhos ministrar  sua mocidade 
inconstante. 
YORK - No seja isso causa de vos ralar, porque os conselhos nem de leve lhe tocam os ouvidos. 
GAUNT - Sim, mas dizem que a fala dos que se acham no transe de morrer a ateno fora qual 
profunda harmonia. Quando poucas so as palavras, raramente ficam desperdiadas. Quem respira a 
custo, s respira a verdade,  sempre justo. Mais a ateno nos prende o moribundo do que o jovem 
estrdio e tresloucado; o fim nos fere mais do que o jucundo passatempo da vida. O fatigado pr do sol, 
como o fim das harmonias e as ltimas pores das iguarias com mais fora nos ficam na memria do 
que as coisas de fama transitria. Espero que Ricardo ora me atenda, que a voz da morte  sempre 
reverenda. 
YORK - No, que tem os ouvidos entupidos por sons aduladores: elogios ao seu governo, esses 
lascivos versos de ritmo venenoso, que no deixa de nas ouas calar da mocidade; as modas da vaidosa e 
altiva Itlia, cujos costumes nosso povo tardo macaqueia, coxeando-lhe no encalo com vil imitao. 
Quando no mundo surgiu qualquer frivolidade - mesmo que seja desprezvel, pouco importa - que
depressa aos ouvidos no lhe viessem sussurrar? Os conselhos sempre chegam retardados, se se acham 
desacordes a vontade e a razo. Servir no queiras de guia a quem despreza o auxlio alheio; vais esgotar 
o alento em vo torneio. 
GAUNT - Qual profeta inspirado ora eu me sinto. Eis o que, na hora extrema, a seu respeito vou 
predizer: durar no pode a sua chama impetuosa de dissipao, porque o fogo violento se consome 
depressa. As chuvas finas duram muito, mas so curtas as grandes tempestades. Quem faz imoderado uso 
da espora, termina por matar a montaria; quem come com sofreguido, acaba por se asfixiar com os 
prprios alimentos. A vaidade falaz, corvo insacivel, aps consumir tudo, se devora. Este real trono, 
esta ilha coroada, este solo de altiva majestade, esta sede de Marte, este novo den, este meio paraso, 
fortaleza que a Natureza para si construiu contra as doenas e os braos invasores; esta raa feliz, mundo 
pequeno, esta pedra preciosa, colocada num mar de prata que lhe faz as vezes de muro intransponvel ou 
de fosso que lhe defende a casa contra a inveja das terras menos fartas; este solo bendito, este torro, esta 
Inglaterra, esta ama, esta matriz, sempre fecunda, de grandes reis, famosos pela origem, temidos pelo 
brao, celebrados por seus feitos em prol da cristandade e da cavalaria - to distante desta ptria, quo 
longe, entre os judeus teimosos o sepulcro se levanta do Salvador do mundo, o santo filho de Maria; esta 
terra de almas caras, este pas carssimo, querido pela reputao de que se goza no mundo, agora se acha 
hipotecado - s de diz-lo, morro! - como casa particular ou herdade abandonada: a Inglaterra, que o 
mar triunfante cinge, cujas costas de pedra inutilizam os assaltos da inveja do marinho Netuno, de 
ignomnia est coberta, pelos apodrecidos pergaminhos dos contratos e manchas de escrituras: esta ptria 
querida, esta Inglaterra que terras outras conquistava, agora fez a triste conquista de si mesma. Ah! se 
possvel fosse que esse escndalo com minha vida desaparecesse, feliz seria a morte que me adviesse. 
(Entram o rei Ricardo, a rainha, Aumerle, Bushy, Green, Bagot, Ross e Willoughby.) 
YORK - O rei chegou; poupai-lhe a mocidade, que os potros ardorosos, ao se verem espicaados, 
mais furiosos ficam. 
RAINHA - Como  que vai passando o nosso nobre tio Lencastre? 
REI RICARDO - Ento, homem, que  isso? Que foi que aconteceu com o idoso Gaunt? 
GAUNT - Como diz esse nome com o meu todo! Gaunt, de fato; e guante, por ser velho, s pele em 
cima de ossos. A tristeza dentro de mim passa um jejum forado. Quem fica sem comer, e no acaba 
como pele de guante? Fiz viglias longas pela Inglaterra adormecida; as viglias produzem s magreza, e 
a magreza  s pele. Fiquei sempre jejuno do que os pais tanto se alegram: a vista de meus filhos. Desse 
modo,  fora de jejuar, tu me deixaste reduzido a este estado: ossos e pele. Pele de guante eu sou para o 
sepulcro, vazio como um tmulo, cujo oco vai receber de mim to-somente ossos. 
REI RICARDO - Podem doentes fazer tais trocadilhos com o prprio nome? 
GAUNT - No; mas a misria folga em ser escarninha de si prpria. J que o meu nome em mim 
matas desta arte, rio-me dele -  rei! - para adular-te. 
REI RICARDO - Adulam moribundos aos que vivem? 
GAUNT - No, os vivos adulam os que morrem. 
REI RICARDO - Estou vivo e me adulas:  patente. 
GAUNT - No; tu morres, embora eu seja o doente. 
REI RICARDO - Estou forte, respiro; tu definhas. 
GAUNT - Deus, que me fez, me diz que de mezinhas tu precisas e que j te avizinhas, como eu, do 
fim da vida. Tens por leito de morte a prpria ptria, onde agoniza tua reputao. E tu, por seres um 
doente negligente, o ungido corpo aos cuidados confiaste dos que tantas feridas te causaram: os milhares 
de aduladores que se abrigam dentro da coroa, cujo mbito, contudo, se mede apenas pela tua cabea. 
Mas, com ser to pequeno o ninho deles, estende-se a devastao por toda tua terra. Ah! se teu av 
pudesse ter sabido que o filho de seu filho viria a ser a runa de seus filhos, longe de ti ele teria posto tua
grande desonra e te haveria deposto antes de seres empossado na posse que depor te ameaa agora. Sim, 
primo, embora fosses rei do mundo, seria vergonhoso hipotecares este pas. Cingindo-se o teu mundo a 
ele somente,  mais do que vergonha desonr-lo a esse ponto. s o intendente da Inglaterra, to-s, no 
seu monarca. O Estado soberano  lei se curva; mas tu... 
REI RICARDO - ... s um luntico sem miolo, que te vales da febre, como se ela te concedesse 
privilgio para com teus glaciais conselhos nos deixares plido o rosto, o sangue real tocando, colrico, 
de sua residncia natural. Pois pela alta majestade do meu trono, se acaso tu no fosses irmo do filho do 
magnfico Eduardo, essa lngua que rolas na cabea com tal desembarao, te faria tambm rolar dos 
ombros a cabea. 
GAUNT - Filho do mano Eduardo, no me poupes por eu ser filho de seu pai Eduardo. J fizeste 
correr a jorros este sangue, tal como o pelicano, e nele te embriagaste. Meu mano Gloster, alma simples e 
boa - possas entre as almas gozar no cu da bem-aventurana! - constitui precedente eloqentssimo, que 
a todos mostra como no te corres de derramar o sangue de Eduardo. Alia-te aos achaques que me 
abatem presentemente, e o teu furor transforma na foice curva que de um golpe apare esta fanada flor. 
Vive na infmia, mas que a infmia no morra juntamente contigo. Que te sirvam de carrasco minhas 
palavras. Conduzi-me logo para o leito; depois, para o sepulcro. 
(Sai, carregado pelos criados.) 
REI RICARDO - E morra quem for velho e rabugento; o tmulo j est de ti sedento. 
YORK - Eu peo, instante, a Vossa Majestade que impute essas palavras  velhice e  doena 
caprichosa. Ele vos ama, por minha vida, to ardentemente como Hereford, se aqui fosse presente. 
REI RICARDO - Como o deles  o meu amor, tambm. Lesado, assim, no ficar ningum. 
(Entra Northumberland.) 
NORTHUMBERLAND - Meu nobre suserano, o velho Gaunt se recomenda a Vossa Majestade. 
REI RICARDO - Que disse ele? 
NORTHUMBERLAND - J disse o que restava para ser dito. Tal como instrumento sem corda, tem 
a lngua. O pensamento j se lhe foi, palavras, vida, tudo, reduzindo Lencastre a um corpo mudo. 
YORK - Possa ser York o prximo a sofrer falncia igual e, em paz, adormecer. 
REI RICARDO - No tempo certo a fruta cai, madura. E lei geral; a vida humana dura para uns curta; 
para outros, longa. Ao termo da peregrinao ele chegara; ns ainda estamos longe. Mas, sobre isso 
basta. Agora falemos da campanha da Irlanda. E necessrio dominarmos esses quernes selvagens de 
cabelos em desalinho, que prosperam como veneno onde veneno algum se encontra seno eles, que tm o 
privilgio de viver.  de vulto o empreendimento, mas impe-nos despesas excessivas. Em vista disso, 
ns nos apossamos da prataria, do dinheiro e rendas, acrescidas de todos os bens mveis pertencentes ao 
nosso tio Gaunt. 
YORK - At quando terei de ser paciente? At quando o respeito reverente me far suportar tantas 
violncias? Nem a morte de Gloster, nem o exlio de Hereford, os insultos dirigidos a Gaunt, nem as 
queixas intestinas da Inglaterra, os motivos que frustraram o casamento ao pobre Bolingbroke, nem as 
minhas desgraas conseguiram perturbar-me a paciente compostura, ou o semblante vincar-me, quando 
em frente do meu senhor. Eu sou o ltimo filho do nobre Eduardo, cujo primognito foi teu bom pai, o 
prncipe de Gales. Nunca se viu to bravo leo na guerra, nem cordeiro, na paz, mais delicado do que 
esse real e jovem gentil-homem. Pareces-te com ele, que essas mesmas feies ele mostrava, quando o 
nmero de teus anos havia completado. Mas se o cenho fechava, era somente para os franceses, no para 
os amigos. Sua mo nobre conquistava quanto viesse ele a gastar, mas no gastava quanto seu pai 
triunfante houvesse ganho. Suas mos no ficaram maculadas com o sangue dos parentes, mas 
vermelhas, to-s, com o dos inimigos da famlia. Oh Ricardo! A tristeza fez que York fosse longe 
demais. A no ser isso, jamais teria feito esse confronto.
REI RICARDO - Ora, tio; que  que h? 
YORK - Meu soberano, perdoai-me se o quiserdes; do contrrio, resignar-me-ei por no me ver 
perdoado. Como! E vossa inteno vos apossardes dos bens e dos direitos soberanos do banido Hereford? 
No morreu Gaunt? No vive, ainda, Hereford? No era honesto Gaunt, assim como leal sempre foi 
Harry? Herdeiro no merece ter aquele? No  um filho digno o seu herdeiro? Espoliar Hereford de seus 
direitos eqivale a tomar do tempo as cartas de privilgio e o seu direito usual. Desse modo impedis que 
o dia de hoje tenha por sucessor o de amanh. Por que sois rei, seno por descendncia legal e sucesso? 
Digo, portanto, diante de Deus - no queira Ele que seja verdade quanto eu falo! - se espoliardes, sem 
razo, Hereford de seus direitos, e no quiserdes receber as cartas patentes com que o seu representante 
reclamar sua posse e vassalagem, sobre vs mesmo chamareis milhares de perigos, vireis a perder muitos 
coraes afetuosos, obrigando minha terna pacincia a pensar coisas que a honra e a obedincia me 
probem. 
REI RICARDO - O certo  que seus bens e sua prata passaro a ser nossos nesta data. 
YORK - No verei isso; meu senhor, adeus. As conseqncias, s as conhece Deus; mas de ruins 
princpios,  sabido, jamais bons resultados tm sado. 
(Sai.) 
REI RICARDO - Bushy, vai logo procurar o conde de Wiltshire e dize-lhe que venha ver-nos em Ely 
House para vermos isso. Amanh partiremos para a Irlanda, o que no  sem tempo, e nomeamos, em 
nossa ausncia, o nosso tio York governador do reino.  leal, e sempre nos foi muito afeioado. Vinde, 
minha rainha;  inevitvel separarmo-nos. No fiqueis triste, que  por pouco tempo. 
(Clarins.) 
(Saem o rei, a rainha, Bushy, Aumerle, Green e Bagot.) 
NORTHUMBERLAND - Lordes, morreu o duque de Lencastre. 
ROSS - No, vive ainda, que o seu filho  duque. 
WILLOUGHBY - Tem o ttulo, apenas, no a renda. 
NORTHUMBERLAND -  rico de ambos, se ainda houver justia. 
ROSS - Sinto repleto o corao e a ponto de arrebentar, se do pesado fardo eu no o aliviar, falando 
s claras. 
NORTHUMBERLAND - Expe sem restries teu pensamento; e que mudo se torne para sempre 
quem dano te causar, ao repeti-lo. 
WILLOUGHBY - Quanto queres dizer-nos se refere ao duque de Hereford? Se for o caso, no te 
embarace o medo; presto ouvidos a tudo quanto seja em seu proveito. 
ROSS - No se trata de bem nenhum que eu possa proporcionar-lhe, a menos que tal nome ds ao 
fato de eu ter dele piedade por o ver esbulhado de sua herana. 
NORTHUMBERLAND - E vergonhoso que essas injustias se pratiquem com um prncipe de 
sangue e com outros mais de nobre nascimento nesta terra a tal ponto decadente. O rei mudou demais; 
guiado se acha por vis aduladores. Tudo o que estes lhe alvitram contra ns, movidos de dio, pe em 
prtica o rei, severamente, contra nossa fazenda, a vida e os filhos. 
ROSS - Sobrecarrega o povo com pesados impostos, o que a todos dele afasta; multou, por questes 
velhas, muitos nobres, o que todos, tambm, afasta dele. 
WILLOUGHBY - Todos os dias surgem novas taxas, como letras em branco, dons gratuitos e coisas 
desse gnero. Dizei-me, por Deus, que nos vir de tais processos? 
NORTHUMBERLAND - A runa geral no vem de guerras, que ainda o rei no declarou nenhuma. 
O que fez foi, em pactos vergonhosos, entregar quanto os seus antepassados haviam conseguido em 
campo aberto. Muito mais caro a paz lhe tem custado do que as grandes empresas deles todos. 
ROSS - O reino se acha hipotecado ao conde de Wiltshire.
WILLOUGHBY - O rei faliu, qual negociante que fosse  bancarrota. 
NORTHUMBERLAND - O oprbrio e a runa pendem sobre ele. 
ROSS - Meios no teria para a guerra da Irlanda, no obstante seus pesados impostos, se no fosse 
roubar a herana do exilado duque. 
NORTHUMBERLAND - Seu digno primo. Oh, que monarca abjeto! Mas, senhores, o certo  que 
escutamos roncar a tempestade ameaadora sem que tratemos de buscar abrigo que da procela resguardar 
nos venha. Vemos forar os ventos nossas velas e, sem nos decidirmos a amain-las, perecemos incautos 
e confiantes. 
ROSS - Temos diante dos olhos o naufrgio que  fora padecermos; o perigo tornou-se inevitvel, 
porque todos concordamos com as causas do desastre. 
NORTHUMBERLAND - No  assim. Percebo que at mesmo das rbitas da morte a vida espia, 
mas no ouso dizer quanto est prxima a notcia que implica salvamento. 
WILLOUGHBY - Dize o que pensas, como j o fizemos. 
ROSS - Northumberland, s franco em teu discurso. Ns trs no somos mais do que tu prprio; ser 
s pensamento o que disseres. Reveste-te, portanto, de coragem. 
NORTHUMBERLAND - Eis o que soube, ento, de Port le Blanc, baa da Bretanha: Harry 
Hereford, lorde Reinaldo Cobham, que de pouco rompeu com o duque de Exeter, seu mano que j foi 
arcebispo de Canturia, sir Toms Erpingham, sir Roberto Waterton, sir John Ramston, sir John Norbery 
e, ainda, Francisco Quoint, armados pelo duque da Bretanha, com oito altos navios e trs mil homens 
prontos para a guerra, vm vindo para c com toda a pressa, calculando saltar dentro de pouco na nossa 
praia norte. J podiam estar aqui muito antes, mas aguardam to-somente que o rei v para a Irlanda. Se 
sacudir quisermos, pois, o jugo, pr novas penas na asa fraturada do pas sucumbido, da hipoteca 
vergonhosa livrar logo a coroa, tirar o p que o ouro do cetro encobre e restituir a forma  majestade, 
sigamos logo para Ravenspurgh. Mas se medo vos causa esse caminho, guardai reserva, que eu irei 
sozinho. 
ROSS - De que ter medo? O meu corcel ligeiro! 
WILLOUGHBY - Se o meu for bom, eu chegarei primeiro. 
(Saem.) 
CENA II 
O mesmo. Um quarto no palcio. Entram a rainha, Bushy e Bagot. 
BUSHY - Senhora, Vossa Majestade se acha muito triste. Lembrai-vos da promessa, quando vos 
despedistes do monarca, de vos desvencilhar do abatimento prejudicial e de assumir alegre disposio. 
RAINHA -  certo; mas s o disse para agradar ao rei, que, por mim mesma, no me fora possvel. 
No entretanto, no sei qual o motivo por que deva, como a hspede, acolher o pesadume, seno por 
ter-me despedido de hspede to suave como o meu doce Ricardo. s vezes me parece ver chegar-se-me 
tristeza inexplicvel, sazonada no ventre da Fortuna; por coisinhas minha alma se apavora, revelando 
maior sofrer do que o que lhe viria da despedida do meu rei e marido. 
BUSHY - A essncia da tristeza emite vinte sombras que com a tristeza se parecem, sem que o 
sejam, contudo, porque os olhos do desgosto, cegados pelas lgrimas, dividem cada corpo em mil 
objetos. Como se d com os quadros que, mirados de frente, no revelam coisa alguma, mas permitem, 
de vis, ver a pintura: do mesmo modo Vossa Majestade, considerando de vis a ausncia de vosso 
esposo, v formas de agruras mais para lastimar do que ele prprio, as quais, vistas de frente, se revelam
como sombras, to-s, de coisa alguma. No choreis, pois, graciosa soberana, mais do que a ausncia 
dele, que s vedes isso, to-s. Mas se outras coisas virdes, por acaso,  certeza estardes vendo pelos 
olhos da dor que, de ordinrio, chora apenas o fato imaginrio. 
RAINHA -  possvel, embora me convena do contrrio o imo peito. Esteja tudo como devera estar, 
deixar no posso de revelar-me triste e, de tal modo, que, se em nada eu pensar, o pensamento desse nada 
me tira, quase, o alento. 
BUSHY - Pura imaginao, graciosa dama. 
RAINHA - No; a imaginao sempre  gerada por tristeza anterior. Mas no meu caso tal no se d. 
Ou nada foi a causa da angstia que me oprime, ou alguma coisa gerou o nada que me deixou triste. 
Minha dor me pertence de direito. O que ela seja, ningum sabe ainda;  dor sem nome, creio, que no 
finda. 
(Entra Green.) 
GREEN - Deus guarde Vossa Majestade! Caros lordes, bom dia. Espero que o monarca no tenha 
ainda partido para a Irlanda. 
RAINHA - Por que o esperas? Melhor fora esperares que j houvesse partido. Seus projetos exigem 
toda pressa, e a pressa  origem de grandes esperanas. Por que esperas que no houvesse ainda ele 
embarcado? 
GREEN - Porque nossa esperana, ele, suas foras deter pudesse e reduzisse ao mximo desespero a 
esperana de um inimigo que acaba de firmar-se em nosso solo: Bolingbroke, o banido, a si chamou-se 
do exlio e acaba de chegar, com foras, em Ravenspurgh. 
RAINHA - Oh! Deus no o permita! 
GREEN - Infelizmente  certo, majestade. Mas o pior  ter-se-lhe juntado lorde Northumberland, seu 
filho Henrique Percy, lordes de Ross, Beaumond e Willoughby com todos seus amigos influentes. 
BUSHY - Por que razo no proclamastes lorde Northumberland traidor e toda a malta de 
revoltosos? 
GREEN - Fi-lo; e  vista disso, o basto de intendente o conde de Worcester quebrou, abandonando 
logo o cargo, depois do que se foi, com os que se achavam no palcio, juntar a Bolingbroke. 
RAINHA - Desta arte, Green, serviste-me no parto de minha mgoa, sendo Bolingbroke o produto 
horroroso. E ora que ao monstro j deu  luz minha alma, como exausta parturiente eu me encontro, 
acrescentando dor sobre dor e angstia sobre angstia. 
BUSHY - No percais a esperana, Majestade. 
RAINHA - Quem mo impede? Desejo o desespero; quero ser inimiga da esperana falaz:  aduladora 
e parasita; retarda a morte, brandamente os liames desata da existncia com fingidas esperanas que a 
luta lhe prolongam. 
(Entra York.) 
GREEN - A vem o duque de York. 
RAINHA - Traz nas velhas espduas sinais certos de guerra; o olhar traduz negcios graves. Tio, por 
Deus, insinuai conforto. 
YORK - Se o fizesse, enganara-me a mim prprio. O conforto  do cu; somos da terra, onde s se 
acham cruzes e tristezas, desespero e cuidados. Vosso esposo partiu para salvar o reino longe; mas aqui 
mesmo outros perder o fazem. Fiquei para servir de esteio ao reino; mas a idade e a fraqueza no 
permitem que a mim mesmo eu sustente. Eis chegada a hora doentia que se segue a todo excesso. Agora 
o rei ter de pr  prova quantos amigos o adulavam antes. 
(Entra um criado.) 
CRIADO - Vosso filho, senhor, tinha partido antes de eu l chegar. 
YORK - Tinha ido embora?  assim? Que tudo, ento, tome o caminho que entender. J fugiu toda a
nobreza; frio se mostra o povo, parecendo-me que ficar do lado de Hereford. Vem c, maroto; vai 
depressa a Plashy; dize  minha irm Gloster que me envie, sem demora, mil libras. Um momento: toma 
este anel. 
CRIADO - Milorde, eu me esquecera de vos comunicar que, de passagem, eu cheguei at l. Mas 
tenho medo de vos aborrecer contando o resto. 
YORK - Que foi que houve, rapaz? 
CRIADO - Falecera a duquesa, havia uma hora. 
YORK - Deus nos ampare! Que ondas de infortnios se vm quebrar, a um tempo, nesta terra 
desgraada! No sei mais o que faa. Prouvera a Deus - assim tivesse sido possvel irrit-lo sem 
valer-me de falsidade - sim, prouvera a Deus que o rei houvesse decepado a minha cabea juntamente 
com a do mano. At agora no foram enviados correios para a Irlanda? Como obtermos recursos para a 
guerra? Vinde, mana - prima, quero dizer; peo desculpas. - Rapaz, vai at casa, arranja uns carros e 
traze as armaduras que encontrares. 
(Sai o criado.) 
Aliciareis soldados, meus senhores? Se eu souber a maneira de pr ordem nestes assuntos que em 
desordem vieram ter-me s mos, no me deis mais nenhum crdito. Ambos so meus parentes. Ao 
monarca me obriga a defender o juramento, como o prprio dever; o outro  sobrinho, que o rei 
prejudicou por modo injusto, cujos direitos a conscincia e os laos de parentesco mandam que eu 
defenda. Preciso fazer algo. Vinde, prima; vou vos pr em lugar de menos risco. Senhores, chamai logo 
os vossos homens; depois nos reuniremos no castelo de Berkeley. A Plashy  necessrio, tambm, que eu 
v... No h tempo de nada. Que m sorte! Todo o mundo carece de suporte. 
(Saem York e a rainha.) 
BUSHY - Os ventos so propcios para enviarmos notcias para a Irlanda, mas nenhuma de l nos 
mandam. Aliciar soldados em proporo igual  dos inimigos,  de todo impossvel. 
GREEN - Alm do mais, o termos nosso posto junto do amor do rei, nos deixa prximos do dio dos 
que o no amam. 
BAGOT - Sim, do povo sempre mudvel, cujo amor se mede pelo estado da bolsa: o esvazi-la 
enche-lhe o corao de mortal dio. 
BUSHY - Ento por todos est o rei julgado. 
BAGOT - Se do povo depende o julgamento, condenados estamos, visto termos sempre ficado ao 
lado do monarca. 
GREEN - Vou, j j, refugiar-me no castelo de Bristol; para l j foi o conde de Wiltshire. 
BUSHY - Irei convosco. Pouco obsquio nos poder prestar o povo odiento, seno, como lebrus, 
espostejar-nos. Acompanhais-nos? 
BAGOT - No; vou para a Irlanda, para onde Sua Majestade se acha. Adeus; se o corao fala a 
verdade, despedimo-nos para a eternidade. 
BUSHY - A menos que York expulse Bolingbroke. 
GREEN - Pobre duque! A tarefa que lhe coube eqivale a contar a areia infinda, ou a beber todo o 
mar. Por um soldado que o defenda, mil vo para o outro lado. Adeus, pois, para sempre. 
BUSHY - Ainda  possvel que nos vejamos. 
BAGOT - No; jamais.  incrvel! 
(Saem.) 
CENA III
Nas florestas de Gloucestershire. Entram Bolingbroke e Northumberland, com foras. 
BOLINGBROKE - Milorde, a que distncia fica Berkeley? 
NORTHUMBERLAND - Nobre lorde, asseguro-vos, sou estrangeiro aqui em Gloucestershire. Estes 
caminhos rudes e as colinas selvagens e altas nossas milhas deixam mais longas e a fadiga nos apressam. 
Vossa prosa agradvel, no entretanto, fez o papel de acar, de tal modo que ficou doce o amargo da 
jornada. Por isso mesmo penso nas canseiras que ho de ter padecido Ross e Willoughby de 
Ravenspurgh at Cotswold, privados de vossa companhia, que, repito, atenuou muito a insipidez da 
viagem. Mas a deles, tambm, se acha atenuada pela esperana de gozarem logo da vantagem de que ora 
eu me enalteo. A esperana de um bem  pouco menos do que o bem alcanado. Por tudo isso, aos 
fatigados lordes h de a estrada parecer curta, como curta a achei, por possuir vossa nobre companhia. 
BOLINGBROKE - Vale menos a minha companhia do que essas delicadas expresses. Mas quem 
vem l? 
(Entra Henrique Percy.) 
NORTHUMBERLAND - Meu filho Henrique Percy, mandado, no sei de onde, com recado do 
mano de Worcester. Henrique, como passa o vosso tio? 
HENRIQUE PERCY - Esperava, senhor, que me disssseis como ia ele passando. 
NORTHUMBERLAND - Como! Acaso no se acha com a rainha? 
HENRIQUE - No, milorde; abandonou a corte, aps a vara de comando quebrar e ter a casa 
dispersado do rei. 
NORTHUMBERLAND - E a razo disso? Na ltima vez que conversamos, ele no pensava em tal 
coisa. 
HENRIQUE PERCY - Por ter sido proclamado traidor Vossa Grandeza. Foi para Ravenspurgh, 
milorde, pr-se a servio do duque de Hereford; a Berkeley me enviou para que eu visse com quantos 
homens conta o duque de York. As minhas instrues mandam que eu volte, depois, a Ravenspurgh. 
NORTHUMBERLAND - J te esqueceste do duque de Hereford? Que  isso, Henrique? 
HENRIQUE PERCY - No, meu senhor; que me esquecer no posso do que no me lembrou jamais. 
Suponho, at, que nunca o vi em minha vida. 
NORTHUMBERLAND - Ento aprende a conhec-lo agora: eis o duque. 
HENRIQUE PERCY - Gracioso lorde, ponho s vossas ordens meu servio, jovem embora e 
inexperiente, mas que os dias da idade ho de deixar maduro e forte para melhor servio e maior mrito. 
BOLINGBROKE - Gentil Percy, obrigado. Podes crer-me que nada to feliz me deixa como possuir 
um corao que no se esquece de seus amigos. Caso a minha sorte cresa com teu afeto, a recompensa 
ela ser de teu amor sincero. Faz o peito o contrato; a mo o sela. 
NORTHUMBERLAND - Berkeley quanto dista? Que proveito de seus soldados tira o bom velho 
York? 
HENRIQUE PERCY - O castelo se encontra alm daquele grupo de rvores, forte de trezentos 
soldados, me disseram. Nele se acham os lordes de York, Berkeley e Seymour. No sei que outros 
fidalgos l se encontrem. 
(Entram Ross e Willoughby.) 
NORTHUMBERLAND - Ai vm vindo lordes Ross e Willoughby com as esporas sangrentas e 
afogueados de tanta pressa. 
BOLINGBROKE - Meus saudares a ambos, milordes. Sei que vosso amor procura somente um 
sublevado posto fora da lei. Minha riqueza, por enquanto, so agradecimentos que no pesam, mas que 
sero, depois de enriquecidos, a justa recompensa dessas vossas canseiras e de vosso amor sincero. 
ROSS - Vossa presena nos faz ricos, muito nobre senhor.
WILLOUGHBY - E com excesso paga todo o esforo que o obt-la nos custasse. 
BOLINGBROKE - Obrigado, de novo. Esse  o tesouro dos pobres, que franqueado h de manter-se 
 liberalidade que me  prpria, at crescer a minha infantil sorte. Mas quem vem vindo a? 
(Entra Berkeley.) 
NORTHUMBERLAND - Milorde Berkeley, segundo penso. 
BERKELEY - E para vs, milorde de Hereford, a mensagem que me trouxe a este lugar. 
BOLINGBROKE - S vos darei resposta como Lencastre, nome que eu procuro presentemente na 
Inglaterra e que hei de ouvir de vossa boca antes que possa retrucar qualquer coisa ao que disserdes. 
BERKELEY - Senhor, no compreendais mal o que eu disse; no tencionava suprimir um ttulo, ao 
menos, de Vossa Honra. Vim, milorde, lorde do que quiserdes, por mandado do gracioso regente desta 
terra, o duque de York, a fim de me dizerdes a causa que vos leva a aproveitar-vos do tempo ausente e a 
alvoroar, desta arte, nossa nativa paz com armas de guerra. 
(Entra York, com squito.) 
BOLINGBROKE - No vos empregarei como correio do que eu disser. Vem vindo a, em pessoa, 
Sua Graa. Meu muito nobre tio... 
(Ajoelha-se.) 
YORK - Mostra-me o corao humilde e franco, no esses joelhos de obedincia falsa e enganadora. 
BOLINGBROKE - Meu gracioso tio... 
YORK - Nada disso! No tenho graa alguma, nem sou tio de ningum, muito menos de um traidor. 
Essa palavra "Graa" se abastarda em boca desgraciosa. Por que causa esses ps interditos e banidos a 
tocar se atreveram na poeira do solo ingls? Mas ainda h mais "Porqus": Por que motivo ousaram 
tantas milhas andar no seu pacfico regao, as plidas aldeias assustando com a guerra e a ostentao de 
armas mesquinhas? Vieste por estar longe o rei ungido? Insensato! O monarca est presente; neste leal 
peito o seu poder se encontra. Se eu dispusesse, ainda, da fogosa mocidade, tal como quando, ao lado de 
teu valente pai, o bravo Gaunt, libertamos aquele jovem Marte, que de prncipe Negro ns chamvamos, 
das filas de milhares de franceses, este brao que preso ora se encontra pela paralisia, sem demora te 
aplicara o castigo reclamado por tua falta. 
BOLINGBROKE - Meu gracioso tio, revelai-me essa falta. Em que consiste? 
YORK -  das mais graves: rebelio grosseira, traio abominanda. Ests banido; contudo, antes do 
prazo aqui te encontras em p de guerra contra o rei legtimo. 
BOLINGBROKE - Se banido eu me achava, fui banido como Hereford; mas vim, como Lencastre. 
Por isso, nobre tio, instantemente suplico a Vossa Graa ver com olhos imparciais meu caso: em vs eu 
vejo meu pai, o velho Gaunt redivivo. Permitireis, ento, meu pai, que eu fique condenado a viver qual 
vagabundo e que as prerrogativas e os direitos do meu nome me sejam arrancados, para esbanjados 
serem por uns tantos perdulrios mimosos do destino? Ento, por que nasci? Se o rei meu primo for o rei 
da Inglaterra,  inevitvel que duque de Lencastre eu tambm seja. Tendes um filho: Aumerle, meu 
parente muito prezado. Se morrido houvsseis primeiro e ele se visse espezinhado como eu agora, certo 
ele teria um pai achado no seu tio Gaunt que as injustias lhe vingara e  malta imporia respeito. Estou 
proibido de reclamar aqui os privilgios que por cartas-patentes me couberam. Meu patrimnio todo foi 
vendido e, como os outros bens, mal empregado. Que desejais que eu faa? Sou um vassalo; apelo para a 
lei: negam-me juizes. Por isso ora eu reclamo pessoalmente a herana que me toca por direito. 
NORTHUMBERLAND - Abusaram demais do nobre duque. 
ROSS - Depender de Vossa Graa, apenas, justia ora fazer-lhe. 
WILLOUGHBY - Suas rendas enriqueceram muita gente baixa. 
YORK - Milordes da Inglaterra, ora escutai-me: senti tambm as injustias feitas contra meu primo e 
procurei san-las quanto me foi possvel. Mas com armas ameaadoras vir, desta maneira, ele prprio
cortar o seu pedao, abrir caminho, assim, fazer justia por meio injusto... No; no pode ser! E vs que 
fomentais a rebelio, encorajando-o, sois tambm rebeldes. 
NORTHUMBERLAND - O nobre duque nos jurou que veio s para reclamar o seu direito. Por 
nosso lado, ns tambm juramos ajud-lo na empresa. Que no tenha jamais prazer quem se tornar 
perjuro. 
YORK - Bem, bem; j estou enxergando as verdadeiras intenes destas armas. Desfaz-las, no me 
 possvel, fora  confess-lo, que o meu poder  fraco e me foi tudo deixado em condies mais que 
precrias. Mas se eu pudesse - pelo cu o juro! - vos deteria todos, obrigando-vos a implorar a clemncia 
do monarca. Mas j que me  impossvel, vos declaro que me conservo neutro. E agora, adeus, salvo se 
entrar quiserdes no castelo, para ai repousardes esta noite. 
BOLINGBROKE - Oferta, meu bom tio, que aceitamos. Mas Vossa Graa tem de acompanhar-nos 
ao castelo de Bristol, que, segundo nos disseram, se encontra sob o mando de Bagot e de Bushy, com 
seus cmplices, essas pragas nocivas  repblica que eu jurei extirpar e consumir. 
YORK - E possvel que eu v: mas dai-me tempo, que violar no me agrada as leis do reino. Amigo 
ou inimigo, pouco importa: entrai. Em caso desses, no direi nem ai. 
(Saem.) 
CENA IV 
Um campo no Pas de Gales. Entram Salisbury e um capito. 
CAPITO - Milorde Salisbury, j esperamos dez dias. Tenho feito muito esforo para conter os 
nossos conterrneos. Estamos sem notcias do monarca; por isso vamos dispersar; adeus. 
SALISBURY - Espera mais um dia, fiel galense; a confiana do rei em ti repousa. 
CAPITO - Dizem que ele morreu; no ficaremos. Mirrados esto todos os loureiros de nossa terra; 
meteoros causam medo s estrelas fixas; sobre os campos projeta luz sangnea a lua plida; profetas 
magros falam em segredo de mudanas terrveis; as pessoas ricas se mostram tristes, os mendigos do 
saltos de alegria; um, porque teme perder quanto ora goza, outro, esperando vir a gozar pelo furor da 
guerra. Sem erro, esses sinais nos pressagiam morte ou queda de rei. Adeus; os nossos compatriotas se 
vo, eu inclusive, certos de que Ricardo j no vive. 
(Sai.) 
SALISBURY - Ah, Ricardo! Com os olhos da tristeza vejo tua glria que, como uma blide, se 
precipita sobre a terra baixa. Teu sol, chorando, j procura o ocaso, conseqncia fatal do teu descaso. 
Reforam teus amigos o inimigo; transmuda-se o teu bem, todo, em perigo. 
(Sai) 
ATO III 
CENA I 
Bristol. Acampamento de Bolingbroke. Entram Bolingbroke, York, Northumberland, Henrique Percy, 
Willoughby, Ross, seguidos de oficiais com Bushy e Green, prisioneiros. 
BOLINGBROKE - Trazei-me logo os homens. Bushy e Green, no desejo atormentar-vos a alma -
pois neste instante ireis perd-la - inquirindo-vos sobre a perniciosa vida que ambos levveis; fora falta 
de caridade. Mas, para lavar-me de vosso sangue as mos, publicamente darei algumas das razes de 
estardes condenados  morte: a causa fostes de se transviar um prncipe, um monarca da mais alta 
nobreza, um gentil-homem no sangue e na aparncia, que deixastes infeliz e de todo transmudado. Com 
vossas horas criminosas fostes, de algum modo, os fautores do divrcio entre o rei e a rainha; a legal 
posse do leito real rompestes; maculastes a beleza das faces de uma linda soberana, com o pranto 
provocado por vossas vilanias. Eu, um prncipe graas ao fado e o nascimento; eu, prximo do meu rei 
pelo sangue e, prximo, inda, pela afeio, at que lhe ensinsseis a me compreender mal, a cerviz tive 
de curvar sob o peso das injrias que me assacastes e de meus suspiros ingleses exalar em cus estranhos, 
comendo o amargo e seco po do exlio, enquanto em minhas posses vos fartveis, limpveis as 
coutadas, abateis minhas florestas e at o prprio escudo de famlia tirveis das janelas de minha casa e 
o lema lhe apagveis, sinal algum deixando, afora o sangue, meu sangue vivo, e o juzo dos estranhos 
que ao mundo revelassem que eu sou nobre. Tudo isso e muito mais, mais de dois tantos disto tudo  que 
 morte vos condena. Levai-os logo para a mo da Morte. 
BUSHY - Acolho mais alegremente o golpe da morte do que a ptria a Bolingbroke. Lordes, adeus. 
GREEN - Consola-me a certeza de que o cu vai abrir-nos suas portas e penas infernais dar  
injustia. 
BOLINGBROKE - Lorde Northumberland, levai-os logo. 
(Saem Northumberland e outros, com Bushy e Green.) 
Tio, dissestes que a rainha se acha em vossa casa. Pelo cu, que nada lhe falte. Transmiti-lhe os meus 
saudares amistosos. Deveis pr muito empenho em lhe fazer chegar meus cumprimentos. 
YORK - J lhe foi enviado um gentil-homem de minha casa com missivas cheias de expresses que 
vos pintam todo o afeto. 
BOLINGBROKE - Caro tio, obrigado. Vamos, lordes, lutar contra Glendower e seus comparsas. Um 
pouco mais de esforo e folgaremos. 
(Saem.) 
CENA II 
Praia no Pas de Gales. Ao longe, um castelo. Toque de clarins. Tambores e trombetas. Entram o rei 
Ricardo, o bispo de Carlisle, Aumerle e soldados. 
; REI RICARDO - E o castelo de Barkloughly que vemos? 
AUMERLE - Sim, milorde. Como acha Vossa Graa o ar, depois de sofrer tantos abalos no mar 
revolto? 
REI RICARDO - Bom tenho de ach-lo. A alegria me faz derramar lgrimas por de novo pisar o solo 
ptrio. Com a mo eu te sado, cara terra, muito embora com os cascos dos cavalos os rebeldes te firam. 
Qual saudosa me que longe do filho tenha estado e, ao rev-lo, sorri, terna, brincando com as prprias 
lgrimas: assim, sorrindo, minha terra, e chorando eu te sado e com estas reais mos te acaricio. No 
alimentes, minha gentil terra. os inimigos de teu soberano, nem com tuas douras satisfaas seus vorazes 
sentidos. Os caminhos lhes enche com as aranhas que te sugam o veneno e com os sapos vagarosos, 
porque lhes faam mal aos ps traioeiros que usurpadoramente te machucam. Aos meus inimigos d 
somente acleos: se de teu seio eles colherem flores, pe como guarda delas, eu te peo, uma serpente 
cuja lngua bfida, de contacto fatal, a morte leve a quantos a teu rei adversos forem. Senhores, no 
zombeis desta insensata conjurao. Primeiro a terra  que h de sentidos revelar e destas pedras ho de
sair soldados aguerridos, antes de vir seu rei a cair vitima dos golpes de uma infame rebelio. 
CARLISLE - Milorde, no temais; a mesma fora que vos fez rei ter poder bastante para vos 
conservar no vosso posto contra todas as foras.  preciso no desprezar os celestiais recursos, mas saber 
acat-los; do contrrio, se o cu o quisesse e ns nos opusssemos aos seus intentos, eqivaleria tal 
proceder a recusar o auxlio celeste e a toda oferta de socorro. 
AUMERLE - Milorde, ele, com isso, est dizendo que somos indolentes e que a nossa tranqilidade 
enseja a Bolingbroke aumentar os recursos e os amigos. 
REI RICARDO - Primo desanimado, ento no sabes que quando o olho do cu fica escondido por 
trs do globo, e o mundo l de baixo deixa claro, passeiam sem ser vistos, por aqui, os ladres e os 
bandoleiros, cometendo faanhas sanguinrias? Mas quando se ala da terrestre esfera e os cimos 
orgulhosos dos pinheiros orientais ilumina, dardejando sua luz pelos recantos criminosos, as traies, os 
pecados detestandos, todos os assassnios, porque o manto da noite os deixa agora descobertos, se 
patenteiam, nus e, de si prprios, do mostras de pavor. Do mesmo modo, quando o ladro, o biltre 
Bolingbroke - que se entrega, no escuro, a essas orgias, enquanto ns estvamos no lado dos antpodas - 
vir que ns surgimos em nosso claro trono do nascente, rubra a traio no rosto h de ficar-lhe, sem 
poder suportar a luz do dia, tremendo de si mesmo e do pecado. Toda a gua do mar spero e selvagem o 
leo santo no tira que foi posto na fronte de um monarca. O curto sopro de homens terrenos  impotente 
para depor um rei que foi por Deus eleito. Para cada homem alistado  fora por Bolingbroke, para o ao 
astucioso levantar contra a nossa urea coroa, tem Deus para Ricardo um dos seus anjos gloriosos, a que 
d celeste paga. Se no h homem que essa fora enfrente, vencer a justia plenamente. 
(Entra Salisbury.) 
Sede bem-vindo. A que distncia se acham nossas foras, milorde? 
SALISBURY - No mais longe, gracioso soberano, nem mais perto do que este fraco brao. A falta 
de nimo me guia a lngua, no deixando que ela nada anuncie seno o desespero. Um dia apenas de 
retardo, temo, nobre senhor, escureceu teus dias felizes sobre a terra. Chama o dia de ontem, faze que o 
tempo atrs retorne, e doze mil soldados sero teus. Mas este hoje, este dia de amargura te destri os 
amigos e a ventura, pois os galenses, que te julgam morto, foram buscar abrigo noutro porto. 
AUMERLE - Coragem! Por que causa ficais plido? 
REI RICARDO - De doze mil soldados aguerridos o sangue, h pouco, eu tinha, na cabea; se ele me 
foge e fico sem sentidos, que muito, pois, que plido eu parea? Quem quiser se salvar, me deixe agora, 
que a mo do tempo o meu braso esflora. 
AUMERLE - Lembrai-vos de quem sois, meu soberano. 
REI RICARDO - Havia-me esquecido de mim prprio. No sou rei? Indolente majestade, desperta! 
Ests dormindo. Pois no vale o s nome de rei vinte mil nomes? s armas, nome! Um sdito mesquinho 
se atreveu a atacar tua grande glria. No prossigais olhando para o solo, favoritos de um rei! Grandes 
no somos? Sejam grandes os nossos pensamentos. Meu tio York, estou certo, ainda tem foras para nos 
ajudar. Mas quem vem vindo? 
(Entra sir Stephen Scroop.) 
SCROOP - Mais sade e ventura em sorte caiba ao meu rei do que pode ser-lhe dito por minha 
lngua que a tristeza inspira. 
REI RICARDO - O corao j tenho preparado e abertos os sentidos. No me podes anunciar seno 
perdas deste mundo, nada mais. Dize, pois: perdi a coroa? Era preocupao. Ser, ento, perda ficarmos 
sem cuidados? Ora entende Bolingbroke igualar-nos em grandeza? Ultrapassar-nos no ser possvel. Se 
ele a Deus serve, a Deus ns serviremos tambm, para ficarmos ao seu lado. Revoltaram-se, acaso, os 
nossos sditos? Nada posso fazer; o juramento violaram, feito a Deus, como o fizemos. Fala de dor, de 
males em porfia; o pior  a morte, e essa h de ter seu dia.
SCROOP - Alegra-me saber que Vossa Alteza se encontra assim armado contra os golpes da 
adversidade. Como tempestuoso dia, fora de tempo, que os regatos cristalinos obriga a derramar-se pelos 
meigos vergis, como se o mundo todo estivesse em lgrimas desfeito: desta arte os seus limites passa a 
raiva de Bolingbroke, vosso amedrontado pas cobrindo de ao duro e flgido e de peitos mais que o ao 
resistentes. Os barbas-brancas as cabeas calvas armaram contra Vossa Majestade; meninos de vozinha 
efeminada, que eles procuram deixar grave, os membros grceis agitam dentro de armaduras tesas para 
atacarem-te a coroa. At teus prprios capeles aprendem a armar o arco de teixo, duplamente fatal, 
contra o teu reino; as fiandeiras deixam as rocas e, com paus tostados, avanam contra ti. Moos e velhos 
se revoltam.  grave a situao, muito mais do que a minha descrio. 
REI RICARDO - Contaste muito bem tua triste histria. Mas onde se acha Green? Onde est o conde 
de Wiltshire? Onde est Bagot? Que foi feito de Bushy, para que eles permitissem que inimigo, desta arte 
perigoso, medisse nossas terras com seus passos imperturbveis? Se ganharmos, todos me pagaro com a 
vida. Aposto que eles j firmaram a paz com Bolingbroke. 
SCROOP - Sim, milorde;  verdade: j firmaram. 
REI RICARDO - Biltres! Serpentes! Rprobos! Danados sem salvao possvel! Ces, dispostos 
sempre a rojar aos ps de todo mundo! Vboras aquecidas no meu peito, que o corao me pungem! Oh! 
Trs Judas, cada um mais traioeiro do que Judas! Fizeram paz? Que o inferno pavoroso a suas almas 
imundas faa guerra sem trguas, pela ofensa praticada. 
SCROOP - Vejo que o doce amor, quando se altera, em amargo e mortal dio se muda. Retira a 
maldio que lhes lanaste: com a cabea a paz eles fizeram, no com as mos. Os que assim amaldioas, 
j os visitou a Morte que no erra, e em repouso se encontram sob a terra. 
AUMERLE - Bushy est morto, e Green, e o conde Wiltshire? 
SCROOP - Em Bristol a cabea lhes cortaram. 
AUMERLE - E onde est meu pai York com suas foras? 
REI RICARDO - No importa onde esteja. No me fale ningum mais em conforto, mas em 
tmulos, epitfios e vermes. Transformemos em papel a poeira, e sobre o seio da terra as nossas mgoas 
escrevamos com olhos inundados. Aprestemos testamenteiros, e de testamento seja nossa conversa. No! 
Cautela! Que poderamos legar? Mais nada, seno,  terra, o corpo destronado. Nossas vidas, o reino, 
tudo, agora pertence a Bolingbroke. Nada resta a que chamemos nosso, afora a morte e esse punhado de 
infrutuosa argila que a nossos ossos serve de coberta. Pelo alto cu, no cho nos assentemos para contar 
histrias pesarosas sobre a morte de reis: como alguns foram depostos, outros mortos em combate, outros 
atormentados pelo espectro dos que eles prprios destronado haviam, outros envenenados pela esposa, 
outros mortos no sono: assassinados todos! E que, no centro da vazia coroa que circunda a real cabea 
tem a Morte sua corte, e, entronizada a, como os jograis, sempre escarnece da majestade e os dentes 
arreganha para suas pompas, dando-lhe existncia fugaz, somente o tempo necessrio para cena pequena, 
porque possa representar de rei, infundir medo, matar apenas com o olhar, inflada de ilusrio conceito de 
si mesma, como se a carne que nos empareda na vida fosse de ao inquebrantvel. E aps se divertir  
saciedade, com um pequeno alfinete ela se adianta, fura a muralha do castelo e, pronto: era uma vez um 
rei! Ponde os chapus; no zombeis, com solenes reverncias, do que  s carne e sangue. Despojai-vos 
do respeito, das formas, dos costumes tradicionais, dos gestos exteriores, que equivocados todos 
estivestes a meu respeito. Como vs, eu vivo tambm de po, padeo privaes, necessito de amigos, sou 
sensvel s dores. Se, a tal ponto, eu sou escravo, como ousais vir dizer-me que eu sou rei? 
CARLISLE - Milorde, os sbios nunca se detm para chorar seus males, mas atalham, resolutos, o 
passo s amarguras. Recear um inimigo, j que o medo oprime toda fora,  dar mais fora ao inimigo,  
custa da fraqueza que revelais. Assim, vossa loucura luta contra vs prprio. Mostrai medo, e morto j 
estareis. Pior no nos pode suceder num combate. Achar a morte combatendo  destru-la por si mesma;
com temor,  ceder a uma avantesma. 
AUMERLE - Meu pai dispe de foras: procurai-o, para fazerdes de uma chispa um raio. 
REI RICARDO - Tens razo de increpar-me, tens. Vaidoso Bolingbroke, eis-me pronto para dar-te 
combate e decidir nosso destino. O frio do temor era aparente; fcil coisa  ganhar o que  da gente. Fala, 
Scroop: onde se acha o nosso tio? S brando, embora o olhar tenhas sombrio. 
SCROOP - Pelo aspecto do cu  pastor sabe o estado e inclinao dizer do dia; o mesmo em meu 
olhar fazer vos cabe, que a lngua vos falar no quereria. Sou como o algoz que a vtima atormenta pouco 
a pouco, deixando a pior notcia para o fim. Vosso tio York juntou-se a Bolingbroke. Todos os castelos 
do norte j caram; os fidalgos do sul, em armas, se acham do seu lado. 
REI RICARDO - J falaste demais. 
(A Aumerle) - Maldito sejas, primo, que deste modo me desviaste do meu doce caminho da 
desgraa. Que ides ora dizer-me? Que esperana ainda podemos ter? Votarei dio - pelo cu! - para toda 
eternidade, a quem me vier falar ainda em conforto. Ao castelo de Flint nos recolhamos. Ali hei de 
finar-me; um rei, escravo da aflio, como rei, lhe acata as ordens. Dispensai meus soldados; a esperana 
da safra est perdida, a runa avana. Vo todos se engajar para a colheita do novo rei; a minha est 
desfeita. No me retruquem nada; fora em vo procurar demover-me da inteno. 
AUMERLE - Senhor, uma palavra. 
REI RICARDO - Dupla ofensa me far quem mostrar lngua propensa para a bajulao. Mandai 
embora todos os meus soldados, sem demora; saiam da noite de Ricardo, fria, para o de Bolingbroke 
excelso dia. 
(Saem.) 
CENA III 
Pas de Gales. Diante do castelo de Flint. Precedidos de tambores e estandartes, entram Bolingbroke e 
suas tropas, York, Northumberland e outros. 
BOLINGBROKE - Ficamos, pois, sabendo, pelas ltimas informaes, que o exrcito galense se 
dispersou e que foi encontrar-se Salisbury com o rei, chegado h pouco a estas praias, seguido de um 
pequeno grupo de partidrios. 
NORTHUMBERLAND - A notcia, milorde,  bela e boa, que Ricardo a cabea escondeu aqui por 
perto. 
YORK - Seria conveniente que milorde Northumberland dissesse: "o rei Ricardo". Que tempo o 
nosso, em que um rei ungido necessita esconder a sacra fronte! 
NORTHUMBERLAND - Vossa Graa se engana; foi apenas para encurtar que eu lhe tirei o ttulo. 
YORK - J houve tempo em que se, assim, to curto com ele houvsseis sido, ele teria sido curto 
convosco, por alardes a cabea a esse ponto, e vos deixara mais curto o comprimento da cabea. 
BOLINGBROKE - No tomeis  m parte, caro tio, mais do que vos compete nestas coisas. 
YORK - No tomeis, caro primo, seno quanto vos competir, que vos seria fcil esquecer que o alto 
cu a todos cobre. 
BOLINGBROKE - Sei-o, tio, e de forma alguma intento opor-me a seus desgnios. Mas, quem 
chega? 
(Entra Henrique Percy.) 
Harry, sejas bem-vindo. Este castelo, afinal, no se rende  nossa fora? 
HENRIQUE PERCY -  que ele est, milorde, guarnecido por modo real para impedir-te o ingresso.
BOLINGBROKE - Por modo real! Est algum rei l dentro? 
HENRIQUE PERCY - Sim, meu senhor, um rei: o rei Ricardo se encontra no interior desse recinto 
de cimento e de pedra. Esto com ele tambm, lordes Aumerle e Salisbury, sir Stephen Scroop, alm de 
um sacerdote cujo nome no sei. 
NORTHUMBERLAND - Ah! Com certeza  o bispo de Carlisle. 
BOLINGBROKE (a Northumberland) - Nobre lorde, aproximai-vos do costado rude desse antigo 
castelo, por trombetas de bronze enviai aos seus ouvidos velhos convite a conferncia e assim dizei-lhe: 
Henrique Bolingbroke de joelhos beija a mo do rei Ricardo, fidelidade pura e vassalagem envia  sua 
muito real pessoa. Aqui fui vindo para aos ps depor-lhe minhas armas e foras, admitindo-se que meu 
exlio seja revogado, restitudos meus bens e a posse destes reconhecida. Do contrrio,  fora que eu 
aproveite todas as vantagens do meu poder e aplaque a estival poeira com torrentes de sangue, 
despejadas das feridas dos nossos compatriotas. Quo longe se acha do sincero anseio de Bolingbroke 
provocar to grande tempestade purprea sobre o verde regao da aprazvel propriedade do rei Ricardo, 
vai prov-lo a minha submisso respeitosa e reverente, ide lhe declarar tudo isso, enquanto ficamos a 
passear sobre o tapete deste ameno relvado. Conversemos sem o barulho ameaador dos nossos 
tambores, porque sejam compreendidas, em todo o seu valor, pelas ameias instveis do castelo as 
razoveis propostas por ns feitas. To terrvel, me parece, vai ser o nosso encontro como o dos 
elementos, a gua e o fogo, quando seu choque tonitruante as faces nebulosas do cu abala e rasga. Seja 
ele o fogo; eu, a gua que se entrega; ele, a clera, enquanto eu sobre a terra lano minhas torrentes. 
Sobre a terra, notai bem, no sobre ele. Avanai todos e notai bem como olha o rei Ricardo. 
(Ouve-se um toque para parlamentar, respondido logo do interior. Toque de clarins. Aparecem sobre 
as ameias o rei Ricardo, o bispo de Carlisle, Aumerle, Scroop e Salisbury.) 
HENRIQUE PERCY - Vede que o prprio rei Ricardo surge como o sol enfarado, que se tinge de 
vermelho, na porta flamejante do oriente, ao perceber que as invejosas nuvens a sua glria empanar 
querem ou macular o trilho do brilhante caminho para o ocaso. 
YORK - No entretanto, seu olhar  de rei. Vede-lhe os olhos, brilhantes como os da guia, ora 
irradiam majestade imperiosa. Oh, que desgraa, tanta nobreza vir a ficar baa! 
REI RICARDO (a Northumberland) Estamos admirados. Muito tempo ficamos esperando que 
dobrasses os trmulos joelhos, por pensarmos que nos considerasses rei legtimo. Se ainda o somos, 
como se atreveram teus membros a esquecer o pagamento da homenagem terrvel que  devida  nossa 
real presena? Se o no somos, mostra-me a mo de Deus que nos houvesse privado do poder. Pois bem 
sabemos que mo alguma existe, de osso e sangue, capaz de nos arrebatar o cetro, seno para roub-lo ou 
profan-lo. E embora imagineis que, a vosso exemplo, todos do peito os coraes tirassem, para os 
desviar de ns, e que em penria nos achamos de amigos: ficai certos de que Deus, meu senhor 
onipotentes para nos socorrer passa revista, neste instante, nas nuvens, em possantes exrcitos de pestes, 
que ho de os filhos nascituros e ainda os no gerados atacar dos que a mo vassala ousarem levantar 
contra ns e se atreverem a ameaar minha coroa excelsa. Dizei a Bolingbroke - pois parece que o vejo 
ali - que cada um dos seus passos em meu reino  traio horripilante. Veio ele para abrir o testamento 
purpreo de uma guerra sanguinosa. Mas antes de ele ter, em paz, na fronte a almejada coroa, dez mil 
outras frontes sangneas de ardorosos filhos ho de desfigurar as rseas faces da Inglaterra, mudar a cor 
virgnea da paz em escarlate indignao e umedecer os campos arrelvados da ptria com o fiel sangue de 
seus filhos. 
NORTHUMBERLAND - No queira o rei do cu que o nosso caro senhor e rei se veja alvo das 
armas incivis e civis. Humildemente te beija as mos teu primo muito nobre, Henrique Bolingbroke e 
jura pelo tmulo ilustre que contm os ossos de vossos reais avs, pela nobreza do sangue dele e vosso, 
originado da mesma fonte grata e favorvel, e pela mo guerreira do defunto Gaunt, bem como por sua
prpria glria, por sua honra, incluindo tudo quanto jurar possa ou dizer: que sua vinda tem por 
finalidade, to-somente, reclamar seus direitos e pedir-vos, de joelhos, a imediata liberdade. Se teu real 
consentimento deres ao que te pede, votar as armas brilhantes  ferrugem, o ajaezado ginete  estrebaria 
e o leal peito ao servio de Vossa Majestade. Jura, como fidalgo, que isso  justo; e eu, como 
gentil-homem, creio nele. 
REI RICARDO - Northumberland, transmite-lhe a resposta do rei: seu nobre primo  aqui 
bem-vindo. Suas reclamaes eqitativas vo-lhe ser concedidas sem protestos. Com o poder persuasivo 
que te  prprio transmite-lhe aos ouvidos atenciosos saudaes amigveis. 
(Northumberland vai para o lado de Bolingbroke.) 
(A Aumerle) - Rebaixamo-nos, primo, no te parece, por mostrarmos tanta pobreza e usarmos de 
linguagem a tal ponto benigna? Aconselharas chamar Northumberland e enviar por ele meu cartel ao 
traidor e, assim, morrermos? 
AUMERLE - No; que valham palavras por espadas at possuirmos armas aceradas. 
REI RICARDO - Oh Deus! Oh Deus!  fora, pois, que a lngua que a sentena ditou do amargo 
exlio daquele insolente homem, com palavras brandas ora a revogue! Oh! No ser eu to grande quanto 
a minha dor, ou, ao menos, menor do que o meu nome! Oh! Se eu pudesse esquecer o que fui, ou no 
lembrar-me do que preciso ser neste momento! Ests inflado, corao altivo? Bate quanto quiseres; 
dou-te plena liberdade, que os nossos inimigos tm liberdade de bater em ns. 
AUMERLE - Northumberland, de volta, j vem vindo. 
REI RICARDO - Que  preciso que o rei agora faa? Submeter-se? F-lo-. Deixar o trono? Ficar 
satisfeito o rei com isso. Perder o titulo de rei? Em nome de Deus, que seja assim. Darei as jias por um 
rosrio; meu palcio esplndido, por um eremitrio; as vestes ricas, por andrajos de pobre; minha alfaia 
lavrada, por um prato de madeira; meu cetro, por basto de peregrino; meus vassalos, em troca das 
imagens de dois santos, e meu imenso reino, por sepultura exgua, pequenina sepultura, um sepulcro 
obscuro e humilde. Ou me inumem em meio  estrada real, onde haja movimento e o povo possa calcar 
com os ps, a todo instante, a fronte do soberano, sim, que sobre o peito j em minha vida eles esto 
pisando. Por que no me calcar, pois, a cabea, depois de eu morto? Aumerle, ests chorando, primo 
sentimental? Com nossas lgrimas vamos deixar o tempo transtornado. Nossos suspiros vo fazer que o 
trigo do vero quebre todo, ocasionando misria nesta terra revoltada. Ou distrao faremos do 
infortnio, inventando brinquedos divertidos com nossas prprias lgrimas? Desta arte, por exemplo: 
deixarmos que elas caiam sempre no mesmo ponto, at nos terem no solo aberto um par de sepulturas, 
sobre as quais a inscrio seria posta: "Aqui jazem dois primos que cavaram com o pranto, no cho duro, 
o prprio tmulo". No nos faria bem nossa desgraa? Sim, sim; mas vejo que disserto  toa e que 
zombas de mim. Potente prncipe, lorde Northumberland, que manda, agora, o alto rei Bolingbroke?  da 
vontade de Sua Alteza que Ricardo viva at que venha a falecer Ricardo? Dele e de vs o meu destino 
aguardo. 
NORTHUMBERLAND - Milorde, ele se encontra  vossa espera no ptio baixo. No quereis 
descer? 
REI RICARDO - Descer... Descer... J vou, como o brilhante Faetonte, que no tenha mais domnio 
sobre os corcis indceis.  para irmos ao ptio baixo? Ptio baixo,  certo, onde os reis se rebaixam, 
visitando traidores e ficando s ordens deles. Baixa, rei, que o sinistro mocho pia onde exultar devera a 
cotovia. 
(Retiram-se da ameia.) 
BOLINGBROKE - Que diz Sua Majestade? 
NORTHUMBERLAND - Os infortnios fazem-no divagar como um luntico. Contudo, a vem. 
(Entra o rei Ricardo e squito.)
BOLINGBROKE - Ficai todos de parte, e respeitosos vos mostrai  Sua Majestade. 
(Ajoelhando-se.) 
Gracioso soberano... 
REI RICARDO - Aviltais, caro primo, esses joelhos principescos, deixando que o vil solo se orgulhe 
de beij-los. Eu quisera que o corao sentisse o vosso afeto, no, como agora, pr os olhos tristes em 
vossa cortesia. Levantai-vos! Tendes o corao muito elevado, sei-o bem; pelo menos a esta altura, 
(leva a mo  altura da cabea.) 
embora calque o joelho a terra dura. 
BOLINGBROKE - Gracioso soberano, vim somente pelo que me pertence. 
REI RICARDO - O que for vosso vos pertence; eu sou vosso;  vosso tudo. 
BOLINGBROKE - Sede meu, meu temido soberano, at onde possa a minha lealdade merecer vosso 
amor. 
REI RICARDO - Pois no; soubestes merec-lo; merecem possu-lo quantos sabem obt-lo pela 
estrada segura da violncia. Tio, a mo. Enxugai esses olhos, porque o pranto no  remdio salvador, 
conquanto vos traduza a afeio. Sou muito moo para servir de vosso pai, meu primo, muito embora 
sejais bastante velho para herdardes meu reino. Tereis tudo quanto quiserdes; dar-vo-lo-ei de grado, que 
ceder  violncia sou forado. Primo, Londres vai ser nossa estao? 
BOLINGBROKE - Sim, meu bom lorde. 
REI RICARDO - Ento no direi "No". 
(Toque de clarins. Saem.) 
CENA IV 
Londres. Jardim do duque de York. Entram a rainha e duas damas. 
RAINHA - Neste jardim que jogo intentaremos para expulsar o fardo dos cuidados? 
PRIMEIRA DAMA - Vamos brincar com bolas, majestade. 
RAINHA - A imaginar o jogo me obrigara que o mundo  s asperezas e que a minha fortuna em vo 
se esfora na ladeira. 
PRIMEIRA DAMA - Vamos danar, senhora. 
RAINHA - Impossvel ser-me- manter no ritmo sempre os ps, quando, cheio de tristeza, o corao 
no bate certo nunca. Por isso, em dana, jovem, no falemos; outro qualquer desporto. 
PRIMEIRA DAMA - Ento, senhora, contaremos histrias. 
RAINHA - As histrias sero tristes ou alegres? 
PRIMEIRA DAMA -  vontade, senhora. 
RAINHA - Ento, nem tristes, nem alegres, rapariga; porque se for jocosa, faltando-me a alegria por 
completo, mais me far lembrada da tristeza; se for um caso triste, tendo eu tantas tristezas a pesar-me, 
trar nova tristeza  minha falta de alegria. No desejo dobrar o que j tenho; nem me quero queixar do 
que me falta. 
PRIMEIRA DAMA - Senhora, eu cantarei. 
RAINHA - Se tens motivo para isso, bem est; mas preferira que chorasses. 
PRIMEIRA DAMA - Senhora, eu poderia chorar, se algum proveito achsseis nisso. 
RAINHA - Eu chorar poderia, se com o choro me viesse algum alvio e eu no tivesse necessidade 
de pedir-te lgrimas. Mas pra a; vm vindo os jardineiros; ponhamo-nos  sombra destas rvores. 
Aposto as minhas amarguras contra um papel de alfinetes em como eles vo do Estado falar, que todo o
mundo outra coisa no faz, quando h mudana; o infortnio no pra; jamais cansa. 
(A rainha e as damas se retiram.) 
(Entram o jardineiro e dois criados.) 
JARDINEIRO - Olha aqueles damascos pendurados; vai amarr-los. So como crianas turbulentas 
que os pais a dobrar foram sob a opresso de seu prdigo peso. Pe estacas nos ramos mais descidos. Tu 
a, faze ao jeito dos carrascos: decapita as vergnteas mais viosas, as que se sobressaem na repblica. 
Em nosso Estado h uma bitola apenas. Enquanto cuidais disso, eu tiro as ervas daninhas, que desviam, 
sem proveito, toda a seiva do solo, em prejuzo das flores benfazejas. 
PRIMEIRO CRIADO - Por que causa devemos observar, no mbito estreito deste recinto, a lei, a 
forma e todas as propores, mostrando, como exemplo digno de ser seguido, o nosso Estado de 
fundamentos firmes, quando  certo que nossa terra, esse jardim cercado pelo mar, est cheio de ciznias, 
suas flores mais belas se estiolam, asfixiadas, as rvores frutferas carecentes de poda, arruinadas as 
sebes, os canteiros em desordem e as ervas boas cheias de lagartas? 
JARDINEIRO - Cala-te! O causador de tal desordem da primavera j perdeu as folhas. As ervas ms, 
que estavam protegidas por sua fronde extensa e que, tirando-lhe a seiva, pareciam sustent-la, 
arrancadas j foram com as razes por Bolingbroke; ao duque me refiro de Wiltshire, Bushy e Green. 
PRIMEIRO CRIADO - Que ests dizendo? Morreram? 
JARDINEIRO - Sim, morreram. Alm disso, Bolingbroke apossou-se do monarca dissipador. Que 
pena no ter este cultivado o pas como o fazemos com o jardim. Na sazo apropriada fazemos inciso na 
casca, a pele das rvores frutferas, por medo de que o excesso de seiva e sangue as deixe muito 
orgulhosas, vindo a se destrurem pela prpria riqueza. Se ele houvesse feito assim com as pessoas 
ambiciosas e de influncia, elas teriam tido vida bastante para dar os frutos do dever e ele enfim os 
gostaria. Suprimimos os ramos parasitas para que os produtivos viver possam. Tivesse ele feito isso, e 
no teria perdido o cetro em tal madraaria. 
PRIMEIRO CRIADO - Acreditais que seja ele deposto? 
JARDINEIRO - J est abaixando; e, quanto a ser deposto, no h dvida alguma. Ainda esta noite 
chegaram cartas para um grande amigo do bravo duque de York, noticiando coisas bem negras. 
RAINHA - Isso me asfixia, impedindo-me a fala. 
(Avanando.) 
 tu, retrato do velho Ado, a este jardim trazido para vesti-lo, apenas: por que causa tem essa lngua 
rude o atrevimento de propalar notcias to penosas? Qual foi a Eva, revela-me, qual serpente tentou a 
anunciar mais uma queda do homem amaldioado? Por que dizes que o rei Ricardo foi deposto? 
Atreves-te, sendo pouco melhor do que esta terra, a pressagiar sua queda? Como, quando, onde obtiveste 
essas notcias lgubres? Responde, miservel. 
JARDINEIRO - Majestade, perdo. Pouca alegria me causa propalar essas notcias; mas s disse a 
verdade. O rei Ricardo na mo forte j est de Bolingbroke. J foi pesada a sorte deles ambos. No prato 
em que se encontra vosso esposo nada mais h, seno poucas vaidades de nenhum peso, que mais leve o 
deixam; mas no lado do grande Bolingbroke se acham todos os pares da Inglaterra, sem contarmos com 
ele. Essa vantagem vai decidir a seu favor a sorte. Se a Londres fordes, sabereis de tudo quanto fala entre 
ns o povo mido. 
RAINHA - gil adversidade, de ps leves, tua embaixada a mim, s, diz respeito, e em sab-la sou a 
ltima? Deixaste-me para o fim, para que eu muito mais tempo tua dor no imo peito conservasse. Vamos 
a Londres, moas, que o deposto rei de Londres se fina de desgosto. Nasci, ento, para aumentar o 
triunfo de Bolingbroke e lhe servir de trunfo? Por tuas ms noticias, jardineiro, vai-te o esforo frustrar 
Deus verdadeiro. 
(Saem a rainha e suas damas.)
JARDINEIRO - Pobre rainha! A praga eu aceitara, se ela curasse a tua sorte amara. Neste ponto 
umas lgrimas, donosas, ela deixou cair. No sero rosas que nele eu vou plantar, seno arruda, planta, 
da compaixo, da dor aguda, planta amarga da graa. Aqui, asinha, ser sempre lembrada uma rainha. 
(Saem.) 
ATO IV 
CENA I 
Londres. Sala de Westminster. Os lordes espirituais se encontram  direita do trono; os temporais,  
esquerda; os comuns, em baixo. Entram Bolingbroke, Aumerle, Surrey, Northumberland, Henrique 
Percy, Fitzwater, outro lorde, o bispo de Carlisle, o abade de Westminster e squito. No fundo, oficiais 
com Bagot. 
BOLINGBROKE - Chamai Bagot. Agora, exprime livremente, Bagot, teu pensamento e nos revela 
quanto sabes da morte do altanado Gloster, quem a tramou com o rei; qual foi o brao que executou o 
ofcio sanguinrio de sua morte triste e prematura. 
BAGOT - Ponde-me em frente, ento, de lorde Aumerle. 
BOLINGBROKE - Avana, primo, e fita esta pessoa. 
BAGOT - Milorde Aumerle, eu sei que vossa ousada lngua no se desdiz. No mortal tempo em que 
a morte de Gloster foi tramada eu vos ouvi dizer: "No tenho o brao longo bastante para que da corte da 
Inglaterra a cabea de meu tio possa em Calais tocar?" Pela mesma poca, entre outras falas mais te ouvi 
dizer que preferias recusar a oferta de cem mil libras a assistir  volta de Bolingbroke, acrescentando, 
ainda, que fora sumo bem para a Inglaterra vir vosso primo a perecer no exlio. 
AUMERLE - Nobres lordes e prncipes, dizei-me que resposta darei a este homem baixo? Rebaixarei 
minhas estrelas belas para, em termos iguais, dar-lhe o castigo? Sou forado a faz-lo; do contrrio, terei 
a honra empanada pela mancha de uns lbios aleivosos. Eis a luva, meu sinete manual que vai deixar-te 
marcado para o inferno. Mentes, digo, e provarei no sangue que te corre no corao que o que disseste  
falso, muito embora ele seja vil bastante para a espada manchar-me de fidalgo. 
BOLINGBROKE - Bagot, no deves levantar a luva. 
AUMERLE - Desejara que fosse o mais notvel - com exceo de um s - entre os presentes o que 
me provocou dessa maneira. 
FITZWATER - Se o teu valor reclama paridade de nascimento, eis meu penhor, Aumerle, como 
resposta ao teu. Por este belo sol que ilumina a tua fronte agora, ouvi quando disseste, e com jactncia o 
afirmavas, que o nobre Gloster tinha sido morto por ti. Se vinte vezes negares o que afirmo, ests 
mentindo vinte vezes. Com a ponta desta espada te enfiarei no corao a tua falsidade, lugar de origem 
dela. 
AUMERLE - No tens coragem de viver, covarde, para ver esse dia. 
FITZWATER - Por minha alma, desejara que fosse agora mesmo. 
AUMERLE - Fitzwater, isso te condena ao inferno. 
HENRIQUE PERCY - Aumerle, ests mentindo. Sua honra neste negcio est to pura quanto 
culpado tu te encontras. Como prova, te lano o meu penhor, que minha vida defender at o ltimo 
suspiro. Abaixa-te e ergue-o, se tiveres brio. 
AUMERLE - Se o no fizer, que minha mo se estrague, sem nunca mais poder brandir a espada 
vingadora sobre o elmo do inimigo.
OUTRO LORDE - Perjuro Aumerle, por igual motivo defendo eu o terreno e te espicao com tantos 
desmentidos quantos possam ser gritados, de sol a sol, no ouvido de um traidor. Eis o meu penhor 
fidalgo; se te atreveres, ala-o para um duelo. 
AUMERLE - Quem mais quer provocar-me? Desafio a todos, pelo cu! Meu peito abriga mil 
espritos, prontos para o embate resistir de um milho da vossa laia. 
SURREY - Lorde Fitzwater, estou bem lembrado da poca em que vs e Aumerle conversastes. 
FITZWATER - E certo; estveis perto. Ser fcil confirmardes, assim, que foi verdade quanto eu 
disse. 
SURREY - Pelo alto cu, to falso quanto o cu, em si mesmo,  verdadeiro. 
FITZWATER - Mentes, Surrey! 
SURREY - Menino descarado, teu desmentido pesa em minha espada de tal modo que a paga ela vai 
dar-te, sobre vingar-me, at que o desmentido, com quem o disse, fiquem sob a terra to quietos como o 
crnio de teu pai. Eis meu penhor fidalgo, como prova do que afirmo; levanta-o, se te atreves 
FITZWATER - Como, sem tino, excitas um cavalo de si to ardoroso! Se coragem no me falece 
para estar com vida, nem para respirar e alimentar-me, ousarei num deserto enfrentar Surrey, no rosto lhe 
cuspir e dizer: mentes, mentes, de novo. Eis meu fiel contrato, para deixar-te preso  minha rude 
correo. Pelo meu maior desejo de subir nesta nova ordem de coisas, Aumerle  criminoso do que eu 
disse na minha acusao. E mais: recordo-me de ter ouvido do exilado Norfolk que tu, Aumerle, havias 
enviado dois homens de tua casa para o nobre duque, em Calais, privarem da existncia. 
AUMERLE - Entregue-me qualquer cristo honesto seu penhor. Como prova de que Norfolk mentiu, 
lano o meu repto, para o caso de poder ele vir para bater-se. 
BOLINGBROKE - Vo ficar em suspenso todas estas divergncias at que seja Norfolk chamado do 
desterro. Sim, que em breve h de ser repatriado. Muito embora seja meu desafeto, restitudo vai ter 
todos os bens e senhorios. Logo que retornar, aprestaremos tudo porque se batam ele e Aumerle. 
CARLISLE - Jamais veremos esse dia honroso. Muitas vezes lutou o banido Norfolk por Jesus 
Cristo no glorioso campo da cristandade, desfraldando a insgnia da Cruz de Cristo contra o pago negro, 
turcos e sarracenos. Fatigado dos blicos trabalhos, retirou-se para a Itlia; em Veneza, essa aprazvel 
regio, entregou o corpo  terra e a alma to pura ao comandante Cristo, sob cujas cores tanto se batera. 
BOLINGBROKE - Como assim, bispo: Norfolk est morto? 
CARLISLE - Sim, milorde; to morto quanto eu vivo. 
BOLINGBROKE - Que a doce paz conduza sua alma doce para o seio do meigo velho Abrao. 
Senhores querelantes, vossas rixas vo ficar em suspenso at que o dia determinemos para vos baterdes. 
(Entra York, com squito) 
YORK - Grande Lencastre, venho procurar-te da parte de Ricardo despojado de seus ornatos, que, de 
motu-prprio, te adota por herdeiro e entrega em tuas mos reais o alto cetro. Sobe ao trono que te 
pertence por herana prxima. E viva Henrique, o quarto desse nome! 
BOLINGBROKE - Em nome, pois, de Deus, ao trono eu subo. 
CARLISLE - Deus no o permita! Ainda que eu fale mal nesta assemblia de reis, dizer toda a 
verdade quero. Prouvera a Deus que neste nobre crculo houvesse algum bastante nobre para servir 
como juiz direito e justo para o nobre Ricardo. A verdadeira nobreza, ento, lhe ensinaria a abster-se de 
semelhante crime. Que vassalo pode julgar seu rei? E das pessoas aqui presentes, quem no  vassalo de 
Ricardo? Os ladres s so julgados aps serem ouvidos, at mesmo quando esto bem patentes seus 
delitos. E ora o emblema da prpria majestade de Deus, seu capito, representante por ele eleito, ungido 
e coroado h tanto tempo e sobre o trono posto, vai ser julgado sem presente achar-se, por um sopro 
inferior e dependente? Deus no permita que em pas cristo almas de tal quilate a fazer venham ao to 
imoral, odiosa e negra. A sditos eu falo, como sdito que em prol de seu monarca Deus inspira. Milorde
de Hereford, aqui presente, a que chamais de rei,  um pusilnime traidor ao rei do nobre e alto Hereford. 
Se o coroardes, fao a profecia que o sangue dos nativos vai o solo fertilizar da ptria e que as idades 
futuras gemero por esse crime detestando. Ir a paz dormir no meio de turcos e de infiis, e na sua sede 
confundir a guerra tumultuosa famlias e parentes. A anarquia, o horror, o medo, o saque desenfreado 
viro morar aqui, passando o nosso pas a ser chamado o novo campo de Glgota e depsito de crnios. 
Se levantardes casa contra casa, nascer a diviso mais desastrosa que jamais viu este pas maldito. Evitai 
esses males, retirando vosso apoio; se no, os vossos filhos e os filhos destes, mesmo com voz lassa, vos 
gritaro aos tmulos: Desgraa! 
NORTHUMBERLAND - Argumentastes bem, senhor. Agora, pelo vosso trabalho, vos detemos por 
crime de traio contra a realeza. Damo-vos a incumbncia, nobre lorde de Westmoreland, de o manter 
sob boa guarda at o dia em que houver de ser julgado. Acedeis, lordes, no que o povo pede? 
BOLINGBROKE - Trazei Ricardo para que ele possa, de pblico, abdicar. Dessa maneira, ficaremos 
estremes de suspeita. 
YORK - Serei seu condutor. 
(Sai.) 
BOLINGBROKE - Lordes, que  nossa ordem vos achais presos, dai-nos fiana para o dia do vosso 
julgamento. 
(A Carlisle) - Pouco, bem pouco, ao vosso amor devemos; por isso, no contvamos convosco. 
(Volta York com o rei Ricardo e oficiais, que trazem a coroa, etc.) 
REI RICARDO - Ai de mim! Por que frente a um rei me chamam, antes que eu me despoje das 
idias com que reinei? No tive tempo, ainda, de insinuar-me, saudar, dobrar os joelhos, mostrar-me 
adulador. Deixai que a mgoa me ensine a submisso. No entanto, lembro-me das feies destes homens. 
Meus vassalos no foram todos? No gritavam: "Salve!" amide para mim? Assim fez Judas com Cristo. 
Este, porm, de doze apstolos s num ho encontrou fidelidade; eu em nenhum, de doze mil vassalos. 
Deus salve o rei! Ningum me diz Amm? Terei de ser meu prprio sacristo? Pois no faz mal; direi 
Amm, embora rei deixasse de ser. Amm, de novo, se Deus pensar como no pensa o povo. A que 
servio eu sou chamado agora? 
YORK - Para fazer de motu-prprio o ofcio que a lassa Majestade te autoriza: teu Estado e a coroa 
resignares a favor de teu primo Bolingbroke. 
REI RICARDO - Dai-me a coroa. Primo, segurai-a. Aqui, primo. Minha mo deste lado; a vossa, no 
outro. Assemelha-se agora esta coroa de ouro a um poo profundo com dois baldes que em tempo 
diferente se enchem de gua: dana no ar o vazio; o outro, no fundo, cheio de gua,  invisvel. O de 
lgrimas cheio, sou eu, que bebo as minhas dores; ascende o vosso:  todo riso e flores. 
BOLINGBROKE - Pensei que resignveis por vontade. 
REI RICARDO - Sim, a coroa; no minha saudade. A glria me tirais; mas a tristeza que me  
prpria, ter sempre realeza. 
BOLINGBROKE - Ficais sem a coroa e sem pesares. 
REI RICARDO - Talvez; mas nestes dares e tomares nada podeis fazer-me.  meu cuidado no ter 
cuidado algum, pois quis o Fado que todos eu perdesse; mas os vossos cuidados vo crescer, ainda esto 
moos. Livrar-me dos cuidados no consigo; vo com a coroa e ficaro comigo. 
BOLINGBROKE - Ficais contente em resignar o trono? 
REI RICARDO - Sim, no; no, sim, pois tenho de ser nada; da, no dizer no, que  tua a alada. 
Vede agora a maneira por que eu prprio vou me destruir: esta coroa incmoda, retiro-a da cabea; o 
cetro intil, jogo-o longe, varrendo do imo peito todo o real orgulho de comando. Com as lgrimas eu 
prprio tiro o blsamo de minha fronte; o diadema entrego com minhas prprias mos; com minha lngua 
renego meus sagrados privilgios; minha palavra anula os juramentos de todos os meus sditos; abdico
da pompa rgia e toda majestade; entrego todos os meus bens, as rendas, todos os meus proventos; 
anulados considero meus atos e decretos. Deus no castigue quem me for perjuro e enseje aos teus 
vassalos bom futuro. Tudo me tirou ele; estou contente; tudo te deu; contigo  conivente. Possas ter vida 
longa, porque o trono conserves de Ricardo e, em abandono, possa este logo, sob a terra fria, vir a esperar 
em paz o ltimo dia. Deus salve o rei Henrique, o felizardo, lhe diz o rei deposto, o ex-rei Ricardo, e lhe 
conceda muitas alegrias em longos anos de brilhantes dias. Que mais falta? 
NORTHUMBERLAND (Mostrando-lhe um papel) - Mais nada, salvo lerdes estas acusaes e os 
crimes brbaros praticados por vs e os vossos cmplices contra o interesse e as leis de nossa terra, 
porque depois de os terdes confessado, os coraes humanos dizer possam que fostes destronado com 
justia. 
REI RICARDO - Precisarei faz-lo? Ser fora que eu desfiz o tecido das loucuras praticadas por 
mim? Dize-me, caro Northumberland, se acaso os teus deslizes anotados ficassem, no terias pejo de os 
ler numa reunio como esta? Mas se o fizesses, neles encontraras uma odiosa passagem sobre a injusta 
deposio de um rei e a violao dos laos sacrossantos de uma jura que no livro do cu est marcada de 
preto e condenada para sempre. E todos vs que me fixais de longe, espicaados pela minha prpria 
misria, embora alguns, como Pilatos, lavem as mos, mostrando uma aparncia de compaixo: Pilatos, 
entregastes-me  minha cruz de dor. Nada, nem toda a gua, vos limpar deste pecado. 
NORTHUMBERLAND - Lede logo, milorde, estes artigos. 
REI RICARDO - No posso ver; as lgrimas o impedem. No entanto, os olhos no me deixa cegos a 
gua salgada, a ponto de no verem nesta reunio um grupo de traidores. Sim, quando os volto para mim, 
percebo que eu sou tambm traidor como os demais, porque meu corao foi conivente no despojar o 
corpo de um monarca, em deixar vil a glria, a potestade a escrava rebaixar, do altivo mando fazer 
vassalo e do meu reino um rstico. 
NORTHUMBERLAND - Meu senhor... 
REI RICARDO - Qual senhor, arrogante! Isso me ofende. No mando em mais ningum; no tenho 
nome nem ttulo, usurpados eram todos os meus nomes, t mesmo o recebido na pia batismal. Infeliz dia! 
Ter eu tantos invernos j vivido, sem que possa saber como me chamo! Fosse eu um rei ridculo de neve 
posto em frente do sol de Bolingbroke, para me derreter em gotas de gua! Rei bondoso, rei grande - no 
entretanto, no grandemente bom - se ainda tem curso minha palavra dentro da Inglaterra, manda vir um 
espelho, para que ele a minha prpria imagem me apresente desde que a Majestade abriu falncia. 
BOLINGBROKE - V buscar um espelho algum da! 
(Sai um dos criados.) 
NORTHUMBERLAND - Lede o papel, enquanto o espelho chega. 
REI RICARDO - Demnio! Comeaste a atormentar-me antes de eu estar no inferno. 
BOLINGBROKE - Deixai isso, lorde Northumberland. 
NORTHUMBERLAND - Sem a leitura, no ficar o povo satisfeito. 
REI RICARDO - Ficar satisfeito; hei de ler tudo, depois de ver o livro em que se encontram escritos 
meus pecados: minha prpria pessoa. 
(Volta o criado com um espelho.) 
D-me o espelho. Vou ler nele. Como! Sem rugas, ainda, mais profundas? To grandes bofetadas a 
tristeza me aplicou, sem deixar marcas mais srias?  espelho adulador! Como as pessoas que na 
prosperidade me seguiam, tu me ests enganando. Sero estas as feies de quem tinha diariamente dez 
mil pessoas sob seu teto e a todas alimentava? Ser esta a face que,  maneira do sol, deixava cego quem 
a olhasse de frente? Era esta a face que fez face a loucuras incontveis para, afinal, ter de baixar os olhos 
diante de Bolingbroke? Muito frgil  a glria que irradia desta face; to frgil quanto a glria  a prpria 
face.
(Joga o espelho ao cho.) 
Ei-la a, reduzida a cem pedaos. No deixes de anotar, rei silencioso, a moral do meu gesto: como as 
mgoas em pouco tempo a face me destruram. 
BOLINGBROKE - Foi a sombra de vossas amarguras que a sombra, apenas, vos destruiu da face. 
REI RICARDO - Repete-o: a sombra, s, das amarguras. Vejamos;  verdade, as minhas mgoas 
esto dentro. Estas mostras exteriores de desespero so somente a sombra da tristeza invisvel que, em 
silncio, se intumesce numa alma torturada. Eis a sua substncia. Eu te agradeo, rei, a tua bondade 
incalculvel, pois tu no s me deste a causa toda do desespero, como me ensinaste, tambm, a 
lastim-la. Vou pedir-vos um favor, simplesmente; depois disso partirei, sem vos ser mais importuno. 
Conceder-me-eis? 
BOLINGBROKE - Dizei-o, belo primo. 
REI RICARDO - "Belo primo!" Maior eu sou que os reis. Quando era eu rei, os meus aduladores 
no passavam de sditos; agora que me tornei vassalo, um rei me adula. Sendo to grande assim, no 
vejo causa por que deva pedir alguma coisa. 
BOLINGBROKE - Pedi, contudo. 
REI RICARDO - E alcanarei a graa? 
BOLINGBROKE - Sem dvida. 
REI RICARDO - Deixai-me, ento, partir. 
BOL1NGBROKE - Para onde? 
REI RICARDO - Qualquer parte em que me encontre longe de vossa vista; isso  que importa. 
BOLINGBROKE - Conduza-o um dos presentes para a Torre. 
REI RICARDO - Oh, belo! Conduzir-me? Como aores em torno a um rei so vossos condutores. 
(Sai o rei Ricardo, levado por um guarda.) 
BOLINGBROKE - Marcamos para a quarta-feira prxima a coroao. Milordes, preparai-vos. 
(Saem todos, com exceo do bispo de Carlisle, o abade de Westminster e Aumerle.) 
ABADE - Triste demais a cena a que assistimos. 
BISPO - Mais tristes sero outras; como espinhos, ho de na alma as sentir nossos filhinhos. 
AUMERLE - Padres, no haver qualquer conjura que a ptria limpe e a deixe outra vez pura? 
ABADE - Milorde, antes de eu me expandir com liberdade sobre assunto to grave,  necessrio que, 
ao vos ser ministrado o sacramento, jureis no s guardar todo segredo sobre o meu plano, como pr em 
prtica quanto, acaso, eu mandar. Tendes a fronte, vejo-o bem, descontente, marejados de lgrimas os 
olhos, de tristezas o corao. Vamos cear; ufano vos deixarei, aps contar meu plano. 
(Saem.) 
ATO V 
CENA I 
Londres. Uma rua que vai ter  Torre. Entram a rainha e uma dama de companhia. 
RAINHA - O rei h de passar por este ponto. Este  o caminho que conduz  Torre de Jlio Csar, 
construda para triste finalidade, em cujo seio de pedra o meu senhor foi condenado a ficar prisioneiro 
pelo altivo Bolingbroke. Sentemo-nos um pouco, caso haja nesta terra revoltada lugar para repouso da 
consorte de seu rei verdadeiro. 
(Entram o rei Ricardo e guardas.)
Mas, cuidado! Olhai, ou antes, no olheis a minha bela flor que emurchece. Contemplai-o, sim, 
porque de piedade venhais todas a rridas ficar e um banho fresco lhe deis com vosso orvalho de sinceras 
lgrimas de afeio. O tu, modelo do lugar onde estava a velha Tria, tu, mapa-mundi da honra, tu, 
sepulcro do rei Ricardo, no o rei Ricardo:  templo da beleza, por que causa ds abrigo  tristeza 
repulsiva, quando o triunfo se aloja numa tasca? 
REI RICARDO - No te alies  dor, bela consorte, para apressar meu fim. Daqui por diante, bela 
alma, aprende a ver em nosso estado primitivo somente um feliz sonho. Ora, despertos, vemos a verdade 
do que somos de fato. Boa amiga, uma jura me fez irmo da feia necessidade: ela e eu somos aliados at 
 morte. Vai logo para a Frana e entra para uma casa religiosa. Nossa vida, mal gasta foi o promio do 
que no cu vai ser o nosso prmio. 
RAINHA - Que vejo! O meu Ricardo est mudado na alma e no corpo, assim, e enfraquecido? 
Privou-te Bolingbroke do intelecto? No imo peito te entrou? Ainda nas vascas da morte, o leo possante 
estende as garras e, em falta de outra coisa, fere a terra, na raiva de se ver, alfim, domado. E tu, agora, 
como um colegial aceitas o castigo, a vara beijas, humildemente o ultraje acaricias, tu, que s um leo e o 
rei das bestas feras? 
REI RICARDO -  certo: rei das feras. Se no fosse ter sido eu rei de feras, ainda estava como um 
feliz rei de homens. No demores, minha boa rainha de outros tempos, vai para a Frana logo; como 
morto me considera, e que esta despedida foi o adeus que eu te disse do meu leito de morte. No correr 
das longas noites do inverno senta-te  lareira, ao lado de boa gente idosa e ouve as histrias que te 
contarem, de pocas terrveis, h muito acontecidas. Como paga, antes de lhes dizeres o boa-noite, 
conta-lhes minha histria lamentvel e em lgrimas os faze ir para o leito. At mesmo os ties sem 
sentimento ho de simpatizar com os dolorosos acentos de tua lngua comovida e de piedade extinguiro 
o fogo, chorando - alguns em cinza, outros com vestes cor de carvo - a sorte de um monarca legtimo 
que o trono a perder veio. 
(Entra Northumberland, com squito.) 
NORTHUMBERLAND - Milorde, Bolingbroke j mudou de parecer: ireis para Pomfret, no para a 
Torre. Sobre vs, senhora, ficou tambm de pouco resolvido que deveis ser levada para a Frana. 
REI RICARDO - Northumberland, escada de que o altivo Bolingbroke se utilizou para alcanar meu 
trono: no ficar o tempo muitas horas envelhecido antes que o teu delito vire postema e em podrido se 
esfaa. Ainda que Bolingbroke venha a dar-te metade do seu reino, achars pouco, porque o ajudaste a 
conquistar o todo. Ele, tambm, sabendo que conheces o meio de implantar reis ilegtimos, h de pensar 
que por motivos fteis achars meio de jog-lo abaixo do trono ilegalmente conquistado. Muda-se em 
medo o amor dos maus amigos; o medo em dio; o dio a um deles leva, ou a ambos,  luta e  morte 
merecida. 
NORTHUMBERLAND - Que a minha falta sobre mim recaia, e acabemos com isto. Despedi-vos 
logo e apartai-vos, que deveis seguir. 
REI RICARDO - Divorciado duas vezes! O homens sem conscincia! Violais dois casamentos ao 
mesmo tempo: o meu com a coroa, e o meu com minha esposa idolatrada. Desmanchemos a jura que 
fizemos ao nos beijarmos. No, no  possvel, que um beijo a consagrou. Vem separar-nos, 
Northumberland: eu sigo para o norte, onde o clima  agravado pelas doenas e pelo frio horrvel; para a 
Frana seguir minha esposa, de onde, em pompa, ela veio, outro maio s de flores, para em Finados 
retornar de dores. 
RAINHA -  certo, ento, que nos separa a dor? 
REI RICARDO - As mos e os coraes, meu grande amor. 
RAINHA - Mandai comigo o rei para o desterro. 
NORTHUMBERLAND - Compaixo isso fora, mas grande erro.
RAINHA - Deixai, ento, que eu fique, tambm, presa. 
REI RICARDO - Juntos, assim, os dois, uma tristeza, somente, perfaramos. Na Frana, por mim, 
vais tu chorar; eu, em lembrana do que s me finarei s de cuidados. Antes longe que perto e separados. 
Medirs com suspiros teu caminho; eu, com gemidos. 
RAINHA - Mais pungente espinho ser a saudade em todo o meu percurso, por ser maior que o teu. 
REI RICARDO - Mas no discurso do meu eu gemerei mais fundamente, porque mil passos minha 
dor aumente. Vamos logo; abreviemos o noivado da nossa dor, que vai ser demorado demais o 
casamento. Um terno beijo para o silncio vai nos dar ensejo. Festejamos, assim, novo himeneu; levas 
meu corao, fico com o teu. 
(Beijam-se.) 
RAINHA - No! D-me o meu de novo; cruel sorte fora ficar com o teu e dar-lhe a morte. 
(Tornam a beijar-se.) 
Agora, sim;  meu; mais nada aspiro; vou tentar dar-lhe a morte com um suspiro. 
REI RICARDO - Da dor esta demora nos faz presa. Seja a ltima palavra a da tristeza. 
(Saem.) 
CENA II 
O mesmo. Um quarto no palcio do duque de York. Entram York e a duquesa. 
DUQUESA - Milorde, eis contar-me o que faltava dizer do encontro, em Londres, dos dois primos, 
quando o pranto vos fez cortar a histria. 
YORK - Onde parei? 
DUQUESA - Naquele ponto triste em que dissestes como mos grosseiras e incivis atiravam das 
janelas terra e espurccias sobre o rei Ricardo. 
YORK - Ento, como eu dizia, o grande duque, Bolingbroke, montado num fogoso e altanado corcel, 
que parecia conhecer o ambicioso cavaleiro, devagar avanou, mas imponente, enquanto as bocas todas o 
aclamavam num s tom: "Deus te ampare, Bolingbroke!" Direis que as janelas tinham fala, tantos olhos, 
ansiosos, se alongavam de seus caixilhos, de ancies e moos, para seu rosto, e bem assim que todas as 
paredes, colgadas de pinturas, a um s tempo gritavam: "S bem-vindo, Bolingbroke! Jesus te ampare 
sempre!" Ao que ele, para todos se virando, cabea descoberta e ainda mais baixa que o colo do cavalo, 
respondia: "Meus caros compatriotas, obrigado!" E assim passou, fazendo sempre o mesmo. 
DUQUESA - Pobre Ricardo! E, nesse meio tempo, como ele se mostrava em seu cavalo? 
YORK - Como os espectadores de uma pea no teatro, aps sair o ator querido, indiferentes olham 
para o que entra depois dele, julgando insuportvel sua tagarelice: desse modo, se no com mais 
desprezo, os assistentes zombavam de Ricardo. Ningum disse: "Deus te salve!" Nenhuma voz amvel 
lhe deu as boas-vindas; atiravam-lhe terra na fronte consagrada, que ele sacudia com gesto de tristeza to 
cativante, a luta revelando nas feies, entre as lgrimas e o riso, sinais de seu pesar e de pacincia, que 
se Deus, por algum desgnio oculto, no tivesse deixado empedernido o corao dos homens, fora certo 
ficarem comovidos e sentirem piedade de Ricardo os prprios brbaros. Mas nisso tem a mo Deus 
poderoso, cujo alvitre acatar nos  foroso. Agora Bolingbroke  o novo rei; obedincia e lealdade eu j 
jurei. 
DUQUESA -- Eis Aumerle, meu filho. 
YORK - Aumerle, outrora; mas por ter sido amigo de Ricardo, mudou de nome. De ora em diante, 
minha senhora, s deveis chamar-lhe Rutland. Dei-me como fiador no parlamento de sua lealdade ao
novo rei. 
(Entra Aumerle.) 
DUQUESA - Sede bem-vindo, filho. Que violetas ora o regao enfeitam da ridente primavera? 
AUMERLE - Senhora, no me ocupou no mnimo, com isso. S Deus sabe que eu no me importo 
de ser uma delas. 
YORK - Sede cauto na nova primavera; se no, a vossa vida se acelera: sereis ceifado antes do 
tempo. E agora, de Oxford, que novidades? Ainda duram as justas e os festejos? 
AUMERLE - Sim, milorde, pelo que me disseram. 
YORK - Devereis comparecer s festas. 
AUMERLE - Deus querendo, essa  a minha inteno. 
YORK - Que selo  esse que do peito te pende? Empalideces? Deixa-me ver o escrito. 
AUMERLE -  sem valia, milorde. 
YORK - Pouco importa; agora eu hei de saber o que ; desejo ver o escrito. 
AUMERLE - Peo que Vossa Graa me perdoe, mas o assunto carece de importncia. Contudo, no 
quisera revel-lo. 
YORK - Pois eu quero saber de que se trata. Tenho medo... 
DUQUESA - De que podeis ter medo? Certamente h de ser alguma letra que ele aceitou para pagar 
os gastos com o vesturio da festa. 
YORK - Aceitou letra que ainda traz consigo? s uma tonta, mulher. Rapaz, desejo ver o escrito. 
AUMERLE - Peo que me perdoeis, mas  impossvel mostrar-vo-lo. 
YORK - J o disse: quero v-lo. 
(Toma-lhe,  fora, o papel e o l.) 
Traio! Crime! Traidor! Escravo! Biltre! 
DUQUESA - Que  que h, senhor? 
YORK - Ol! H algum a dentro? 
(Entra um criado.) 
Sela o cavalo. Deus se apiade dele. Traio inominvel! 
DUQUESA - Que h, senhor? Que aconteceu? 
YORK - J o disse. As minhas botas! Apronta-me o cavalo! 
(Sai o criado.) 
Por meu nome, minha honra, a prpria vida, eu mesmo quero denunciar o vilo. 
DUQUESA - Mas o que  que houve? 
YORK - Silncio, mulher tonta. 
DUQUESA - No, no hei de ficar calada. O que foi que houve, Aumerle? 
AUMERLE - Boa me, acalmai-vos; no fiz nada que minha vida resgatar no possa. 
DUQUESA - Resgatares com a vida! 
YORK - Traze as botas! Vou procurar o rei. 
(Entra o criado, com as botas.) 
DUQUESA - Bate-lhe, Aumerle. Pobre menino; ests estupefacto. 
(Ao criado) - Retira-te, vilo, da minha vista! 
YORK -- D-me as botas, j o disse. 
(Sai o criado.) 
DUQUESA - Que pretendes fazer? No dissimulas nem os deslizes de tua prpria gente? Temos 
mais filhos? Porventura estamos em condies de os ter? O tempo, acaso, no fez secar minha 
fecundidade? Tencionas a velhice despojar-me do meu nico filho e do bendito nome de me deixar-me 
rf de todo? No tem ele os teus traos? No  teu filho?
YORK - Mulher louca, sem juzo, pretendes ocultar essa monstruosa conspirao? juraram doze 
deles, por ocasio do sacramento, e as prprias mos, neste escrito, o fato confirmaram, matar o rei em 
Oxford. 
DUQUESA - No deixamos que ele v; ficar aqui conosco. Que lhe importa tudo isso? 
YORK - Sai, maluca, mulher sem juzo! Fosse vinte vezes ele meu filho e, certo, o denunciara. 
DUQUESA - Se tivesses passado pelas dores que por ele eu passei, tu te mostraras mais compassivo. 
Mas somente agora compreendo o teu pensar:  que suspeitas que eu no fui leal ao nosso prprio leito. 
Um bastardo vs nele, no teu filho. Doce York, amado esposo, expunge ao esprito to suspeitosa idia! 
Tanto quanto possvel, ele tem tuas feies. No tem meus traos, nem de meus parentes. No entanto, eu 
o amo. 
YORK - Sai, mulher indcil! 
(Sai.) 
DUQUESA - Vai atrs dele, Aumerle, em seu cavalo! Apressa-te; esporeia-o, porque possas chegar 
diante do rei primeiro que ele, para pedir perdo antes de seres acusado por ele. Eu no demoro; 
conquanto seja velha, no duvido que possa cavalgar tanto quanto York. No me levantarei do solo, 
enquanto no te houver perdoado Bolingbroke. Vai logo! No demores! 
(Saem.) 
CENA III 
Windsor. Um quarto no castelo. Entram Bolingbroke, como rei; Henrique Percy e outros nobres. 
BOLINGBROKE - Ningum me d notcias de meu filho perdulrio? Trs meses j passaram da 
ltima vez que o vi. Se h malefcio que sobre ns impenda,  ele, sem dvida. Prouvera a Deus, 
senhores, que o encontrsseis. Investigai em Londres, nas tavernas, por ser a, segundo dizem, que ele 
diariamente se encontra, acompanhado de gente licenciosa e sem princpios, tal como essas pessoas,  o 
que dizem, que ficam pelas vielas, procurando bater nos guardas e roubar quem passa, enquanto ele, esse 
moo libertino, rapaz efeminado, considera ponto de honra amparar tamanha corja de desbriados. 
HENRIQUE PERCY - Milorde, eu vi o prncipe h cerca de dois dias e lhe disse que os festejos 
iriam ser em Oxford. 
BOLINGBROKE - E que disse esse estrdio? 
HENRIQUE PERCY - Disse que tencionava ir a um alcouce para tomar a luva a uma rameira, que 
ele, como penhor, carregaria, jurando derrubar da sela quantos ousassem desafi-lo nestas justas. 
BOLINGBROKE - To libertino quanto ousado. Rstias entrevejo, no entanto, de melhores 
esperanas, que podem, de futuro, patentear-nos dias mais risonhos. Mas quem vindo a? 
(Entra Aumerle.) 
AUMERLE - Onde est o rei? 
BOLINGBROKE - Que quer o primo que olha desse modo? 
AUMERLE - Deus guarde Vossa Graa. Imploro a Vossa Majestade secreta conferncia com Vossa 
Graa. 
BOLINGBROKE - Retirai-vos todos: deixai-nos ss. 
(Saem Henrique Percy e nobres.) 
E agora, primo, que h? 
AUMERLE (ajoelha-se) - Desejo ter os joelhos ao cho presos, grudada a lngua ao paladar. se acaso 
no me perdoardes antes de me ouvirdes e de eu ficar de p.
BOLINGBROKE - Foi essa falta concebida somente ou posta em prtica? Se o pensamento mau no 
alou vo, para ganhar-te o afeto eu te perdo. 
AUMERLE - Ento permite que esta porta eu feche, para que interromper ningum nos venha antes 
de eu dizer tudo. 
BOLINGBROKE - Como queiras. 
(Aumerle corre o ferrolho da porta.) 
YORK (fora) - Cautela, meu senhor; tomai cuidado, que est um traidor junto de Vossa Graa! 
229 BOLINGBROKE (arrancando da espada) - Miservel! Vou pr-te em condies de no me fazer 
mal. 
AUMERLE - Sustai o brao vingador; nada tendes a recear. 
YORK (dentro) - Abre a porta, acautela-te, rei louco! Ser preciso, ento, que, por lealdade, tenha eu 
de ser traidor? Abre essa porta, se no a arrombarei. 
(Bolingbroke abre a porta, correndo, de novo, logo depois, o ferrolho.) 
(Entra York.) 
BOLINGBROKE - Tio, que  que houve? Falai; retomai flego; dizei-nos quo perto est o perigo, 
porque seja possvel remov-lo pelas armas. 
YORK - Vers por este escrito que perigo correste e corres, que ele est contigo. 
AUMERLE - Lembra-te, quando o leres, da promessa que me fizeste. Estou arrependido. No leias o 
meu nome; divorcia-se meu corao da mo que isso subscreve. 
YORK - Mas estava a ela unida, biltre, at antes de teres assinado. Eu tirei isso do peito do traidor, 
meu soberano. No  a dedicao,  o medo, apenas, que o induz a se mostrar arrependido. No te 
lembres, portanto, de perdoar-lhe, porque tua piedade no se mude numa serpente que te morda o peito. 
BOLINGBROKE - Oh, que monstruosa, enorme, temerria conspirao! Que pai sincero e digno de 
um filho falso!  fonte argntea e lmpida de onde provm esta corrente suja que por desvos imundos se 
conspurca! Teu transbordante bem em mal se muda; mas h de ser o excesso de bondade que vai atenuar 
o mortal crime de teu transviado filho. 
YORK - Desse modo ser minha virtude a alcoviteira de seus vcios, pagando ele a vergonha com 
minha honra, como sempre o fazem os filhos perdulrios com o dinheiro dos avarentos. Para ficar viva 
minha honra, h de morrer sua desonra; mas se esta no morrer, j no tenho honra. Se o deixares com 
vida, ds-me a morte. Decide, pois,  rei, da nossa sorte. 
DUQUESA (dentro) - Deixai-me entrar, meu caro soberano, por tudo o que  sagrado! 
BOLINGBROKE - Quem suplica com voz to estridente e assim to alto? 
DUQUESA (dentro) - Uma mulher,  rei! Sou eu, tua tia! Fala-me! Tem piedade, abre essa porta! 
Quem te est implorando  uma mendiga que nunca mendigou. 
BOLINGBROKE - A nossa pea virou comdia, permiti que o diga, e ora se chama: "O Prncipe e a 
Mendiga". Meu perigoso primo, abri essa porta que  vossa me, eu sei; mas pouco importa, que, de 
cansada, ela h de vir arfando para pedir por vosso crime infando. 
(Aumerle abre o ferrolho da porta.) 
YORK - Se lhe perdoardes, seja a que pedido, maiores crimes te faro rendido. Para que no se perca 
a vida cara, corta-se o membro podre; o corpo sara. 
(Entra a duquesa.) 
DUQUESA - No o ouas, rei, que o filho ele difama; quem no ama a si prprio, a ningum ama. 
YORK - A que vens, louca? Em busca de algum meio para pr novamente o monstro ao seio? 
DUQUESA - Pacincia, meu bom York. 
(Ajoelha-se.) 
Ouvi-me,  rei!
BOLINGBROKE - Boa tia, de p. 
DUQUESA - No; falarei como me encontro, sem que possa o dia de calma jamais ver e de alegria, 
Se no me deres a certeza, agora, de que meu filho no se encontra fora de teu bom corao, meu filho 
amado, meu Rutland, que aqui est como culpado. 
AUMERLE - Dobro os joelhos; reforo o seu pedido 
(Ajoelha-se.) 
YORK - Pois contra ambos, senhor, meu corpo fido se prostra neste instante. 
(Ajoelha-se.) 
S desgraas te viro da brandura; no desfaas tua felicidade. 
DUQUESA -  ele sincero? Vede-lhe o rosto: acaso est severo? Lgrimas no derrama; sua prece 
no vem do corao; alma refece no traduz:  enunciada por brinquedo. Quanto ele diz, no passa de 
arremedo de palavras; as nossas, do imo peito se originam; so lmpidas, no jeito de quem pede com 
alma e corao. Ele pede, querendo ouvir um "No". Seus joelhos se alariam de bom grado, sei-o bem; 
mas os nossos, com o cuidado que aqui nos trouxe, estreme de malcia, lanariam no cho raiz propcia. 
Sua prece revela hipocrisia; a nossa a dor e o zelo concilia. Mais do que a dele a nossa prece alcana; 
dai-nos, pois, o perdo, sem mais tardana. 
BOLINGBROKE - Ficai de p, boa tia. 
DUQUESA - No "de p"; dize "perdo", primeiro, e, aps, "de p". Se a falar eu tivesse de 
ensinar-te, na palavra "perdo" toda a minha arte concentraria, para que a aprendesses em primeiro lugar. 
Oh! D corpo a esses meus anseios,  rei! Dize: "perdo"; seja tua mestra, nisto, a compaixo. Termo 
curto, mas doce sem medida; quando um rei o profere,  a prpria vida. 
YORK - Fala, rei, em francs: "Pardonnez moy". 
DUQUESA - Ensinas ao perdo a lio m, porque ela se destrua? Oh! que marido sem alma, 
corao empedernido, que a palavra contra ela prpria lana. Dize "perdo", acorde com a usana de 
nossa terra. A rude algaravia dos franceses inculca barbaria. J comeam teus olhos a falar;  lngua 
ensina, pois, o linguajar do verdadeiro amor, ou pe o ouvido no corao piedoso, porque o rudo possas 
ouvir que fazem nossas preces e o almejado perdo tu nos apresses. 
BOLINGBROKE - Ficai de p. 
DUQUESA - No vim pedir apenas para ficar de p, seno que as penas me alivies. 
BOLINGBROKE - Concedo-lhe o perdo, para que Deus tambm me estenda a mo. 
DUQUESA - Oh! Quanto pode um joelho que se curva! Mas o temor a mente ainda me enturva. 
Torna a dizer, que repetir o mesmo vocbulo no  perdoar a esmo, mas  dar-lhe asas para excelso vo. 
BOLINGBROKE - De todo o corao eu lhe perdo. 
DUQUESA - s um deus sobre a terra. 
BOLINGBROKE - Quanto ao nosso fiel cunhado, e o abade, e todo o resto dessa malta de scios, 
vou soltar-lhes no encalo a destruio. Bondoso tio, mandai para Oxford suficientes foras, ou para 
onde os traidores se encontrarem. Farei que sem demora o bando imundo de seu peso alivie o nosso 
mundo. Tio, adeus; caro primo, adeus tambm; soube tua me interceder com arte. 
DUQUESA - Vamos, meu filho; Deus vai transformar-te. 
(Saem.) 
CENA IV 
Outro quarto no castelo. Entram Exton e um criado.
EXTON No prestaste ateno no que o rei disse? "No terei um amigo que me livre deste receio 
vivo?" No foi isso? 
CRIADO - Foram exatamente essas palavras. 
EXTON - "No terei um amigo?" disse; e duas vezes o repetiu com bastante nfase. No  verdade? 
CRIADO -  certo. 
EXTON - Assim falando, ele me olhava fixo, como a dizer: "Quisera que tu fosses o homem capaz 
de me tirar do peito semelhante temor", aluso clara ao soberano que em Pomfret se encontra. Vou 
demonstrar que sou do rei amigo e que ele poder contar comigo. 
(Saem.) 
CENA V 
Pomfret. O calabouo do castelo. Entra o rei Ricardo. 
REI RICARDO - Estive a refletir como me seja possvel comparar esta angustiosa priso ao vasto 
mundo. Sendo o mundo to populoso e aqui no existindo, alm de mim, nenhuma outra criatura, no sei 
como o consiga. Mas no paro de martelar a idia: darei provas de que minha alma e o crebro casaram e 
que uma gerao de pensamentos, logo aps, conceberam. E, so esses pensamentos que o meu pequeno 
mundo povoaram de caprichos, da maneira por que vemos no mundo, visto como jamais os pensamentos 
se acomodam. Os mais graduados, como os pensamentos relativos a assuntos religiosos, de dvidas se 
mesclam, provocando conflito entre as palavras. Por exemplo: "Deixai que os pequeninos venham a 
mim". E aps: " bem mais fcil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que eles alcanarem o 
reino de meu pai". Os pensamentos ambiciosos cogitam s de absurdos: como estas fracas unhas abrir 
possam uma passagem atravs das ptreas costelas deste mundo, esta minha spera priso. E, porque 
falham, morrem vtima do prprio orgulho. Os pensamentos calmos se iludem com dizer no serem eles 
os primeiros escravos da Fortuna, nem os ltimos, ainda, como certos imbecis que, no potro de suplcios, 
se consolam do oprbrio, com dizerem que outras pessoas por ali passaram e outras mais passaro. Com 
essa idia eles experimentam certo alvio, jogando a desventura para as costas dos que passaram por 
iguais tormentos. Desta arte, eu represento ao mesmo tempo muitas pessoas, todas descontentes. Sou rei, 
por vezes. A traio, nessa hora, me leva a desejar ser um mendigo, e mendigo me torno. Ento o peso da 
misria de novo me persuade que eu estava melhor sendo monarca. Torno a ser rei; mas nesse mesmo 
instante ponho-me a imaginar que Bolingbroke me destronou e que eu no sou mais nada. Seja o que for, 
porm, nem eu nem homem algum, que seja um homem, simplesmente, com coisa alguma poder 
mostrar-se contente, enquanto no ficar tranqilo, virando nada. Mas que ouo? Msica? 
(Ouve-se msica.) 
Conservai o compasso! Como a doce msica  insuportvel para o ouvido, quando falha o compasso 
e no se observa nenhuma proporo. A mesma coisa se passa na harmonia da existncia dos mortais. 
Aqui eu tenho ouvido fino para apanhar pequena dissonncia de uma corda mal posta. No entretanto, no 
percebi a falta de compasso que deveria haver na consonncia do meu tempo e do Estado. Malgastei todo 
meu tempo; o tempo ora me gasta, porque me vejo transformado agora no relgio do tempo. Os 
pensamentos so minutos, que com suspiros batem no quadrante dos olhos, onde se acha sempre meu 
dedo,  guisa de ponteiro para marcar as horas e limp-las de lgrimas. Agora, meu querido Ricardo, o 
som que nos indica as horas so suspiros profundos que me batem no corao: o sino. Assim, suspiros, 
lgrimas e gemidos, os minutos, o tempo e as horas marcam. Mas meu tempo corre atrs da alegria 
presunosa de Bolingbroke, enquanto eu, como um nscio, me transformo no Joo de seu relgio. Mas
estou quase louco com esta msica! Parem com isso! Embora tenha a msica restitudo a razo a muitos 
loucos, no meu caso, parece, deixa os sbios loucos de todo. No; bendito seja o corao que teve tal 
idia. Revela amor; e amor para Ricardo  como jia usada neste mundo to cheio de dios. 
(Entra um palafreneiro.) 
PALAFRENEIRO - Salve, real prncipe! 
REI RICARDO - Nobre par, obrigado. O mais barato de ns dois ainda  caro dez vintns. Mas 
quem s tu, rapaz? Por que motivo vieste at onde ningum chega, afora esse sombrio co que no se 
esquece de me trazer comida porque possa viver minha desgraa? 
PALAFRENEIRO - Eu sou um pobre palafreneiro,  rei, de teu servio no tempo em que eras rei, 
que, de passagem para York, aps muito trabalho, obtive permisso para o rosto contemplar do meu 
nobre senhor de antigamente. Como meu corao ficou apertado, quando em Londres, no dia dos festejos 
da coroao eu vi montar o altivo Bolingbroke no teu ruo Berbere, justamente o cavalo em que folgavas 
cavalgar, o cavalo, justamente, de que eu tratava com tamanho zelo! 
REI RICARDO - Cavalgava o Berbere? Amigo, dize: como o animal, com ele ao dorso, estava? 
PALAFRENEIRO - De tanto orgulho, desdenhava a terra. 
REI RICARDO - Por carregar o altivo Bolingbroke, mostrava-se orgulhoso? Esse sendeiro j comeu 
po em minhas mos reais; esta mo j o deixou vaidoso, apenas com lhe dar palmadinhas. No caminho 
no tropeou? No sofreu queda alguma - j que  foroso vir abaixo o orgulho - e o pescoo partiu do 
homem vaidoso que lhe usurpava o dorso? Mas perdoa-me, cavalo. Por que causa repreender-te, se foste 
criado para ser domado pelos homens e ao dorso carreg-los? Eu no nasci cavalo; no entretanto, como 
um asno carrego um fardo ingente e me vejo esporeado, at  canseira mxima, pelo altivo Bolingbroke. 
(Entra o carcereiro, com um prato.) 
CARCEREIRO - Basta, rapaz; vai logo dando o fora. 
REI RICARDO - Se amor me tens, no fiques; vai-te embora. 
PALAFRENEIRO - Nada pode dizer a alma que chora. 
(Sai.) 
CARCEREIRO - No quereis dar incio  refeio? 
REI RICARDO - Antes, porm, deves prov-la, no? 
CARCEREIRO - No me atrevo, milorde, pois sir Pierce de Exton, que veio do palcio h pouco, 
trouxe ordens radicais nesse sentido. 
REI RICARDO - O diabo leve a Henrique de Lencastre, juntamente contigo! J est gasta minha 
pacincia; estou cansado disto. 
(Bate no carcereiro.) 
CARCEREIRO - Socorro! Socorro! 
(Entram Exton e criados, armados.) 
REI RICARDO - Que quer a Morte neste rude assalto? Tua prpria mo me vai dar o instrumento, 
bandido, de tua morte. 
(Arranca a espada de um dos criados e o mata.) 
E tu, vai logo, desce a ocupar outro lugar no inferno. 
(Mata outro criado; ento, Exton o prostra.) 
H de ficar nas chamas sempiternas essa mo que abalou minha pessoa. Exton, com sangue real tua 
mo ousada manchou a prpria terra ao rei sagrada. Desa meu corpo, j de tudo falto; sobe, minha alma, 
teu lugar  no alto! 
(Morre.) 
EXTON - Cheio de ardor como de sangue real! Derramei ambos; no redunde em mal. O diabo, que 
a princpio me dizia que era bem feito, agora me cicia que este meu ato se acha para eterno registado na
crnica do inferno. Vou levar ao rei vivo o rei defunto; enterrai estes corpos aqui junto. 
(Saem.) 
CENA VI 
Windsor. Um quarto no castelo. Toque de clarins. Entram Bolingbroke e York, com nobres e squitos. 
BOLINGBROKE - Bondoso tio, as ltimas notcias recebidas nos dizem que os rebeldes puseram 
fogo em Cicester, cidade de Gloucestershire. Contudo ignoro se conseguiram escapar ou no. 
(Entra Northumberland.) 
Sede bem-vindo. Que noticias h? 
NORTHUMBERLAND - Primeiro, votos de felicidade ao teu sagrado Estado. A outra notcia  a 
seguinte: mandei j para Londres as cabeas de Spencer, Salisbury, Blunt e Kent. A maneira por que 
foram todos eles vencidos, neste mao de papis podeis v-la mais de espao. 
BOLINGBROKE - Gentil Percy, obrigado; a recompensa do teu trabalho no ter detena. 
(Entra Fitzwater.) 
FITZWATER - Mandei, milorde, de Oxford para Londres as cabeas de Brocas e sir Bennett Seely, 
dois dos traidores conjurados que em Oxford intentaram derrubar-te. 
BOLINGBROKE - No ficar teu mrito esquecido, que eu bem sei quo fiel tu me tens sido. 
(Entra Henrique Percy com o bispo de Carlisle.) 
HENRIQUE PERCY - O abade de Westminster, milorde, o grande conspirador, com o peso dos 
remorsos e da melancolia acabrunhante cedeu o trreo corpo  sepultura. Mas Carlisle aqui est, porque a 
sentena lhe comines de sua audcia imensa. 
BOLINGBROKE - Carlisle, vais ouvir o teu castigo: escolhe logo algum secreto abrigo, de fama 
religiosa mais fervente do que foi sempre a tua, e a, contente, passa teus dias. Nesse calmo asilo se bem 
viveres, morrers tranqilo. Conquanto sempre fosses meu contrrio, sei bem que no possuis peito 
nefrio. 
(Entra Exton, com criados que trazem um atade.) 
EXTON - Grande rei, neste esquife eu te apresento teu medo sepultado. Sem perigo mais para ti, a 
jaz teu inimigo, Ricardo de Bordus, por mim trazido. 
BOLINGBROKE - Exton, no te agradeo; o cometido feito de que te orgulhas me enxovalha, 
cobrindo a nossa ptria de mortalha. 
EXTON - Tu mesmo,  rei, me insinuaste o feito. 
BOLINGBROKE - Quem recorre ao veneno, s proveito dele entende tirar; dio lhe vota. No te 
amo; muito embora eu a derrota de Ricardo almejasse, ora abomino, quanto lhe tenho amor, seu 
assassino. Em tua prpria conscincia, que te esmaga, procura agora a merecida paga, no em palavras de 
agradecimento, nem em favores reais e valimento. Como Caim, passa a vagar de noite, sem jamais 
encontrares quem te acoite. Senhores, asseguro-vos que da alma confrangida fugiu-me toda a calma, por 
ver que necessrio se tornasse, para minha subida, este traspasse. Vinde chorar comigo o que eu lamento 
e ponde luto desde este momento.  Terra Santa pretendo ir, contrito, para limpar-me deste atroz delito. 
Solidrios ficai na minha agrura, lastimando esta morte prematura. 
(Saem.)

